AHARA: A Dieta Ayurvedica

AHARA: A Dieta Ayurvedica

O Ayurveda afirma que a pessoa deve alimentar-se na quantidade adequada. A quantidade de alimento consumida depende do poder de digestão, ou seja, do fogo digestivo ou Agni em sânscrito. O Charaka Samhita, principal texto de clinica médica ayurvedica, ensina que a quantidade adequada é aquela que não perturba o equilíbrio dos Doshas ( forças biológicas) e é digerida no tempo correto. Por exemplo: se nós jantarmos de forma compatível, pela manhã a comida já terá sido digerida e teremos fome novamente. A quantidade dos alimentos não pode ser padronizada pois depende do fogo digestivo ( poder digestório) de cada individuo e mesmo este varia em situações diferentes. Afirma-se que no inverno e na juventude a capacidade digestiva é maior que no verão e na velhice. Vejamos a afirmação de Charaka:

“ …os alimentos leves têm predominância nas qualidades de Vayu ( Ar) e
Agni ( Fogo) Já os pesados apresentam as qualidades de Prthvi ( Terra) e
Ap ( Água). Logo de acordo com suas qualidades as comidas leves estimu-
lam a fome e pela sua natureza são consideradas menos prejudiciais mes-
mo quando utilizadas em excesso…Por outro lado os alimentos pesados por
serem considerados supressores da fome são deletérios se consumidos em
excesso a menos que haja um forte poder digestivo alcançado pela atividade
física. Então a qualidade do alimento depende do poder da digestão incluindo
o metabolismo” ( Charaka Samhita, trad. Dash e Sharma , 2007, vol I, p. 107)

Os alimentos considerados leves ( laghu) são aqueles que possuem predominância de Ar ( Vayu) e Fogo ( Agni) na sua constituição pois aumentam o fogo digestivo e não agravam os Doshas. Porem os considerados pesados apresentam maior concentração de Água ( Jala ou Ap) e Terra ( Prthivi) e tem qualidades opostas a capacidade digestiva levando a agravação dos Doshas. A recomendação é estimularmos a ingestão de comida leve e evitarmos o excesso daquelas consideradas pesadas. Porem podemos consumir mais alimentos pesados se nossa capacidade digestória estiver aumentada pela pratica regular de atividade física e uso de condimentos quentes que aumentam o Agni. Ex gengibre, açafrão da terra e pimenta do reino.

Segundo Charaka os alimentos utilizados na quantidade apropriada ajudam a trazer vitalidade, longevidade e felicidade. Alguns são especificamente recomendados por este autor: arroz, feijão moiachi (greem gram), sal de rocha ( sal rosa ou sal do Himalaia) , amalaki, ( Emblica officinalis), água de chuva, e ghee ( manteiga clarificada). Mas foi Vagbhata, autor do tratado clássico Ashtanga Hrdaya ( o coração dos 8 ramos do Ayurveda), que definiu a quantidade correta de comida durante a refeição:
“Metade do estomago deve ser preenchido com alimentos sólidos, um quarto
com líquidos e um outro quarto deve-se manter vazio para o ar” ( Vagbhata,
trad. Murthy, 1998, vol I, p. 240)

A mensagem do Ayurveda é que nunca devemos comer até ficarmos empanturrados, pelo contrario devemos sair da mesa com um pequeno espaço no estômago. Durante a refeição podemos usar um pouco de água, nunca gelada, ou ate um pequena quantidade de chá de ervas digestivas como o funcho ou erva doce ( Foeniculum vulgaris). Evita-se trocar a mastigação adequada pelo uso de excesso de líquidos. Nesta visão indiana não existe quantidade mensurável do alimento pois tudo depende da capacidade digestiva da pessoa,que é ditada pelo Agni ( fogo digestivo) individual. Aquele antigo adágio:“tomar café como um príncipe, almoçar como um rei e jantar como um mendigo” pode ser utilizado aqui pois o nosso Agni segue as forças da natureza: o sol é o grande doador de Agni e está na sua plenitude no meio do dia, quando devemos fazer a principal refeição. Já no final do dia o poder digestório está diminuído e a refeição deve ser mais leve.

Alem disto o Ayurveda recomenda usarmos os 6 sabores na dieta, ou seja, quanto mais variada a nossa comida melhor..Devemos evitar os alimentos que nós não conseguimos imaginar crescendo na natureza, pois não são de fontes naturais e tornam-se inadequados a saúde do corpo, como exemplo pode-se citar as margarinas, os refrigerantes e os achocolatados. Nesta filosofia médica indiana acredita-se que na região e na estação do ano que nós vivemos é onde achamos os melhores alimentos para a nossa saúde. Estes são encontrados nas feiras orgânicas. Termino com a afirmação de Vagbhata no seu tratado clássico “Ashtanga Hrdaya”:

“ Aquele que utiliza alimentos saudáveis e atividades equilibradas, que discrimina o bem e o mal e age de forma adequada, que não é muito apegado aos objetos dos sentidos, que desenvolve o hábito da caridade, considerando todos como iguais, de falar a verdade, tendo paciência e perdoando o erro dos outros e que busca a boa companhia, este, torna-se livre do adoecimento” (Vagbhata, trad. Murthy, 1998, p. 52, Vol. I )

Aderson Moreira da Rocha
Aderson Moreira da Rocha
Médico de família, reumatologista, acupunturista e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Phramacy, tradicional escola de Ayurveda do sul da Índia. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ, presidente da Associação Brasileira de Ayurveda e autor do livro “ A Tradição do Ayurveda” pela editora Águia Dourada.
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