A Filosofia Ayurvedica

A Filosofia Ayurvedica
Nos textos clássicos do Ayurveda não existe uma seção especifica sobre filosofia porem podemos pinçar aqui e ali e montar uma abordagem filosófica desta medicina oriental. Na tradição indiana há uma forte crença que para o completo sucesso de cada trabalho ou atividade deve-se iniciar com uma prece para sua amada divindade. Vagbhata no seu Astanga Samgraha, compendio dos 8 ramos do Ayurveda, inicia o tratado da seguinte forma : “ Um gesto respeitoso a Buda que pelo poder do conhecimento e magia subjugou a poderosa serpente chamada citta ( mente), a qual a cabeça é prolongada e variada com tipos irreais de desejos; a qual o capuz é o rancor; a qual o veneno é a luxuria e a raiva, a qual as presas são a falta de bom senso,; a qual os olhos assustadores são a ganancia; a qual a face é a causa da ilusão que reside dentro das cavidades do corpo. Eu me curvo em reverencia Aquele único médico que dissipou deste mundo as rogas (doenças) começando por raga ( desejo ) que é inato com a sua causa, da mesma forma eu reverencio aqueles que sabem completamente a ciência da medicina…”
O termo “ Aquele único médico” refere-se a o senhor Buda, pois o autor era budista. A palavra raga, ou seja, desejo inclui: luxuria ( kama), raiva ( krodha), ganancia ( lobha), ilusão ( moha), arrogância ( mada), ciúmes (matsarya ), magoa ( grief), ódio ( dvesa) e medo ( bhaya). A causa de todos estes distúrbios é a ignorância. No mesmo texto o autor afirma:” Pessoas desejosas de uma vida longa que é a fonte de obter dharma, artha e sukha devem acreditar nos ensinamentos do Ayuveda” Na tradição indiana a palavra dharma vem do radical dhri que significa sustentar. Dharma é o dever de cada pessoa neste planeta, aquilo que sustenta a vida ou o código de uma vida correta. Já o mestre Yogananda, autor da “Autobiografia de um Iogue”, ensina: “O maior dharma ou dever de cada ser humano é descobrir, pela realização, que ele é sustentado por Deus”. Artha significa riqueza material e sukha refere-se a felicidade.
No Caraka Samhita, principal texto de clinica médica ayurvedica, existe um verso que confirma a afirmação de Vagbhata: “Boa saúde é a raiz dos atos virtuosos, aquisição de riqueza, gratificação dos desejos e emancipação final ( libertação). A doença é a destruidora da saúde, bem estar e da vida…tornou-se um grande obstáculo no caminho da vida humana. Qual poderia ser o remédio ? …” Este foi o questionamento dos sábios que buscaram a solução no Ayurveda. Sem a saúde nada pode ser conquistado, por conseguinte a saúde é a raiz de todas as aquisições do ser humano. Neste contexto afirma-se que a vida somente faz sentido se houver felicidade pois para esta filosofia oriental saúde, não é apenas ausência de doença, é um estado de felicidade. A ausência de felicidade deve-se a violação do dharma ( dever de cada ser humano), o que é resultado da ignorância, ou seja, falta de autoconhecimento. Porem a melhor definição de saúde vem do texto clássico Kasyapa Samhita: “Desejo pela ingestão de alimentos, digestão tranquila dos alimentos ingeridos, uma adequada eliminação de fezes, urina e flatos, leveza no corpo, estado agradável dos órgãos dos sentidos, um dormir e acordar confortáveis, uma obtenção de energia, compleição, longevidade, felicidade e um equilíbrio do fogo digestivo são características de saúde e o estado oposto é o adoecimento”
Há uma interessante história contada no Caraka Samhita, tratado de clinica médica, sobre os sábios da antiga Índia no quarto capítulo da seção Cikitsa Sthana: Os sábios, que eram residentes das florestas ou se se moviam de um lugar a outro, resolveram se estabelecer nas cidades e usufruir do seu estilo de vida, dieta, remédios e a companhia de pessoas ignorantes. Devido a isto se interessaram pelo acumulo de riquezas, tornaram-se preguiçosos e abandonaram as praticas regulares de meditações. Após algum tempo eles realizaram o equivoco de residir nos centros urbanos cercado de pessoas ignorantes e o quanto isto estava prejudicando sua saúde. Tomaram a decisão de retornar as montanhas do Himalaia com seu ambiente benéfico e pacifico para reestabelecer seu estilo saudável de vida. Ao chegarem encontraram Indra, o rei dos deuses, que observando o lamentável estado de saúde dos sábios afirmou: “Estes são os resultados de viver nas cidades em associação com as pessoas ignorantes… agora é o momento de olhar para sua saúde… eu irei transmitir a vocês este conhecimento do Ayurveda que é o mais sagrado, promotor da longevidade, que alivia as doenças e a velhice, doador de vitalidade, auspicioso, protetor e universal. Vocês devem ouvir, absorver e propagar esta sabedoria para o bem estar das pessoas”.
O Caraka Samhita é o único texto clássico, referendado, que fala sobre Yoga no sua seção chamada Sarira Sthana: “Felicidade e miséria são sentidas devido ao contato com a alma ( self), órgãos dos sentidos, mente e os objetos dos sentidos. Estas sensações desaparecem quando a mente esta firmemente concentrada na alma e os poderes sobrenaturais são atingidos no corpo e na mente. Este estado é conhecido como Yoga de acordo com os sábios versados nesta ciência”. O Yoga é o meio para se atingir moksha, ou seja, libertação, que foi denominada de nirvana pelo senhor Buda. Na tradição hindu a pessoa que atinge este estado é chamada jivan-mukta, o liberado enquanto ainda é vivo. Na Bhagavad Gita, principal texto do pensamento indiano, ele é definido da seguinte forma: “Aquele cuja mente não se agita na infelicidade, e de quem já se foi o desejo ardente por prazeres, livre de desejos, medo e raiva, aquele cujo conhecimento é firme, este é chamado de sábio”.
O iluminado Swami Satyananda colocou a busca pela libertação ou moksha de forma brilhante no seu livro “Sure Ways to Self-Realization”: “ Aqueles que são sérios sobre a realização, sobre atingir estados profundos de consciência, devem, sinceramente, envolver-se em uma forma de sadhana (prática espiritual), primeiro devem purificar a mente através de hatha yoga ( yoga vigoroso), karma yoga ( yoga da ação), bhakti yoga ( yoga da devoção) e técnicas gerais de meditação que envolvam mais consciência do que concentração…deve-se fazer tudo com a completa consciência. Nós devemos trabalhar em separar o ser ilusório no nosso consciente grosseiro, passo a passo através da purificação, do nosso verdadeiro e eterno ser. Nós podemos fazer isto pela prática de viveka ( discernimento), yama ( auto-restrições), niyama (disciplina interna), pratyahara ( recolhimento dos sentidos), dharana ( concentração) e dhyana ( meditação).”
Existe uma analogia na tradição dos índios americanos que conta que em cada mente existe dois distintos cachorros: o cão bondoso e o cão malvado que estão em constante batalha. O cão malvado representa nossa ignorância através das tendências a inveja, ódio, luxúria, ganancia, arrogância e ilusão. Porem o cão bondoso representa nossa sabedoria através das nossas tendências ao perdão, humildade, generosidade, compaixão, autocontrole e autoconhecimento. Qualquer que seja o cachorro que nós alimentemos mais, através das escolhas que fazemos e utilização do nosso tempo, irá latir mais alto e dominar o outro cão. A verdadeira virtude é nutrir o cachorro bondoso e deixar o cachorro malvado morrer de fome.
Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha, médico de família, reumatologista, especialista em Acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Tel: (21) 25373251, visite: www.ayurveda.com.br

Aderson Moreira da Rocha
Aderson Moreira da Rocha
Médico de família, reumatologista, acupunturista e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Phramacy, tradicional escola de Ayurveda do sul da Índia. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ, presidente da Associação Brasileira de Ayurveda e autor do livro “ A Tradição do Ayurveda” pela editora Águia Dourada.
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