O AYURVEDA E A COMIDA SAUDÁVEL

O Ayurveda e a Comida Saudável
Torna-se cada vez mais pertinente discutirmos a dieta pois ficou difícil entender, com tantas informações disponíveis, qual a melhor comida para as pessoas. Engraçado pensarmos que o único animal, chamado de racional e o topo da evolução, que tem esta dificuldade é o Homo sapiens. Nós não conseguimos imaginar uma vaca, no seu habitat natural, com dificuldades em escolher o capim mais verde e tenro da esquerda ou a erva mais velha e seca da direita. Ou mesmo pensar em um gorila africano, perdido na floresta, sem conseguir decidir qual vegetal é mais adequado ao seu almoço. Esta “duvida cruel” sobre a melhor dieta é característica da modernidade. Mas por que precisamos de superespecialistas para nos indicar a melhor comida se os animais nunca passam por este questionamento.
Atualmente a ciência cartesiana e reducionista enfatiza o estudo de nutrientes e esquece da importância fundamental da comida onde estes nutrientes estão inseridos. Isto promove uma mudança na nossa maneira de pensar: não comemos mais peixe, frango ou carne, ingerimos proteínas, não pensamos mais no macarrão do jantar mas no consumo de carboidratos. O leite deixou de ser um alimento nutridor para se transformar em uma suspensão de proteínas, gorduras, carboidratos e cálcio. Esta maneira de olhar a dieta foi cunhada de “nutricionismo”, que não tem nenhuma relação com nutrição, mas com uma forma reducionista de olhar para a comida, é na verdade, como todo ismo, uma ideologia, uma crença que nos foi imposta pela influencia de um pensamento que interessa a indústria dos alimentos e não a nossa saúde. O sociólogo Gyorgy Scrinis afirma: “ ao entendermos a comida como, apenas, a soma de várias quantidades de nutrientes que contem podemos ter alimentos processados e industrializados com todas as quantidades adequadas de nutrientes e por isto mais “saudáveis” do que aqueles encontrados na natureza…” Nossa! Nada mais conveniente para a indústria dos alimentos.
Uma das grandes bandeiras do pensamento reducionista é que o colesterol é o grande vilão do nosso coração. Isto começa a ser questionado quando observamos que metade das pessoas que tem um enfarto não tem colesterol elevado e metade das pessoas que tem colesterol elevado não enfartam. Claro que aqui existe um grande interesse da indústria farmacêutica em convencer os médicos a prescrever estatinas (remédio para baixar o colesterol), inclusive preventivamente, sem levar em conta o risco/custo/beneficio de usar uma droga repleta de efeitos adversos. Mas o principal é que conseguimos baixar o colesterol apenas com mudanças no nosso estilo de vida sem necessidade de medicamentos deletérios. Outra bandeira do nutricionismo é a “hipótese lipídica” que afirma que o aumento de gorduras saturadas na dieta (aquelas de origem animal) está diretamente relacionado ao aumento de doenças cardiovasculares. Isto também é questionado através do chamado “paradoxo francês”. Os franceses comem muito mais gorduras que os americanos e tem menos doenças do coração. No seu interessante livro “ Em Defesa da Comida”, o premiado jornalista Michael Pollan coloca a afirmação do cientista Frank Hu da Escola de Saúde Publica de Harvard; “ Hoje, cada vez mais, se reconhece que a campanha por baixos teores de gorduras se baseou em poucas provas cientificas e pode ter produzido consequências não intencionais”.
A dieta ocidental fundamentada em alimentos industrializados e processados, cereais refinados, produtos químicos, monoculturas, abundancia de calorias, açúcar branco, carnes de animais confinados, excesso em tudo exceto no mais importante: frutas, legumes, verduras frescos e cereais integrais. Esta alimentação que podemos chamar de “dieta de supermercado” deixa as pessoas doentes e gordas. No século passado vários pesquisadores que trabalhavam com populações nativas, sem contato com a dieta ocidental, notaram a menor incidência ou até mesmo a ausência das doenças crônicas tão comuns em nosso meio. Pomos citar: Burkitt e Schweitzer na África, Hutton entre os esquimós, Hrdlicka com os índios norte americanos, McCarrison na Índia, Campbell na China e Price entre vários grupos diferentes, incluindo índios peruanos e arborígenes da Austrália, Nova Guiné, Nova Zelândia e Melanésia. As doenças cardíacas, diabetes, câncer, obesidade, hipertensão arterial, cáries e AVC eram ausentes ou com uma incidência muito menor que no ocidente. Michael Pollan afirma sobre estas populações: “ Mas o denominador comum de boa saúde…era consumir uma dieta tradicional constituída de alimentos de origem animal e vegetal frescos, criados e cultivados em solos que eram, em si, ricos em nutrientes” (ver “ Em Defesa da Comida “, p. 114)
Estas pesquisas confirmam a abordagem tradicional do Ayurveda. Nesta filosofia médica oriental existe o ênfase ao conceito de Pathya : “ Pathya, ou seja, comida saudável é aquela que não é prejudicial ao corpo e é agradável a mente” . Afirma-se que se o paciente faz uma dieta fundamentada em Pathya, ou seja, fundamentada em comida saudável, não há necessidade de tomar remédios por que apenas Pathya irá acalmar e tratar o adoecimento, principalmente nos estágios iniciais. Por outro lado, se o paciente não segue uma alimentação saudável, denominada Apathya, tomar medicamentos não terá o resultado esperado pois ele estará se intoxicando várias vezes ao dia. A comida que traz saúde deve necessariamente ser agradável a mente pois se não for saborosa pode haver aversão a dieta o que será também deletério ao tratamento. Aqui lembramos a famosa máxima de Hipócrates, considerado o pai da medicina: “faça do seu alimento o seu remédio”.
Colocamos abaixo algumas dicas ayurvedicas para uma digestão e alimentação saudáveis:
1- Use os 6 sabores na dieta: seja variado na sua alimentação.
2- Saia da mesa com um pequeno espaço no estomago: nunca coma até ficar empanturrado.
3- Procure valorizar as refeições: coma em local tranquilo, sem TV, computador e celular.
4- Faça atividade física regularmente: exercícios melhoram a digestão e evacuação.
5- Evite gelados: alimentos e líquidos muito frios prejudicam a digestão.
6- Tome café como um príncipe, almoce como um rei e jante como um mendigo: sua principal refeição deve ser o almoço e a refeição noturna é necessariamente mais leve.
7- Tenha regularidade na sua rotina diária: procure fazer as refeições nos mesmos horários diariamente.
8- Use uma colher de chá de ghee na comida: a manteiga clarificada ou ghee é um promotor da digestão e evacuação.
9- Utilize condimentos variados: segundo o Ayurveda os temperos ajudam na digestão.
10- Ao acordar beba um copo de água bem cheio com 5 gotas de limão: ingerir água com limão, em jejum, ajuda na digestão e evacuação.
11- Mastigue bem os alimentos: lembre-se que seu estomago não tem dentes.
12- Beba água entre as refeições: evite trocar a mastigação adequada pela ingestão de excesso de líquidos com a comida.
13- Procure usar comida que você consegue imaginar crescendo na natureza: evite alimentos artificiais como margarinas, refrigerantes e achocolatados.
14- Troque a “dieta de supermercado” pela alimentação orgânica: frequente as feiras orgânicas.
15- Cozinhe seus alimentos: a melhor maneira de controlar sua dieta é cozinhando.
16- O Ayurveda recomenda alimentos frescos, da mesma região e estação do ano.
17- Somente coma se a refeição anterior tiver sido digerida: isto significa apenas alimente-se se estiver com fome
18- Faça um dia de limpeza por semana: escolha um dia da semana e somente use alimentos de origem vegetal, sem nada proveniente de fontes animais.
19- Use chá de funcho ou erva doce: esta planta medicinal ajuda a promover a digestão e eliminar toxinas digestivas.
20- Não faça da comida antidepressivo ou ansiolítico: se estiver passando por um período de estresse, ansiedade ou depressão não desconte na comida, pratique meditação.

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha, médico de família, reumatologista, especialista em Acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. TEl: (21) 25373251.
Visite: www.ayurveda.com.br

Aderson Moreira da Rocha
Aderson Moreira da Rocha
Médico de família, reumatologista, acupunturista e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Phramacy, tradicional escola de Ayurveda do sul da Índia. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ, presidente da Associação Brasileira de Ayurveda e autor do livro “ A Tradição do Ayurveda” pela editora Águia Dourada.
Recent Posts