O Rig Veda é literatura mais antiga da cultura indiana e é muito provavelmente a fonte comum da arte, ciência, literatura, filosofia e oficio que se desenvolveu na Índia nos sécu-
los subseqüentes. A literatura do Rig Veda é dedicada aos ritos e sacrifícios que eram feitos aos deuses. No Rig Veda podemos observar que a religião, mitologia, medicina e magia são coisas inseparáveis o que levou Keneth Zysk a afirmar que a medicina do período védico é, necessáriamente, uma medicina mágico-religiosa. Feuerstein afirma:

“ O famoso estudioso indiano Surendranath Dasgupta caracterizou a religião védica, com toda a razão, como um “misticismo sacrificial”. Isto porque o sacrifício (yajna) estava no âmago das crenças e práticas religiosas da Civilização do Indo. Distinguiam-se duas espécies de ritos sacrificiais: os sacrifícios domésticos, ou Griha, e os sacrifícios públicos, ou Srauta. Os primeiros eram cerimônias particulares que só envolviam uma família e uma fogueira. Os segundos exigiam numerosos sacerdotes, três fogueiras e toda uma multidão de participantes silenciosos. Durante vários dias, as vezes semanas e até meses. Em certas ocasiões especiais a tribo ou o povoado inteiro se congregava para participar de grande sacrifícios, como o famoso agni-shtoma (sacrifício do fogo) e o ashva-medha ( sacrifício do cavalo), o qual só era realizado de quando em quando para garantir a continuidade do reinado de um grande rei ou a prosperidade da tribo ou do país.” (Feuerstein, 2001:101)

A religiosidade do povo védico caracterizava-se por um grande vigor e naturalidade, nas preces, eles rogavam por uma vida longa, saudável e prospera em harmonia com a ordem cósmica. Porem os hinos védicos também deixam claro que haviam pessoas de iniciação mais mística que aspiravam a comunhão com o deus ou a deusa da sua eleição ou mesmo a fusão com o Ser supremo. Feuerstein afirma sobre os rishis ou videntes dos Vedas:

“ Os heróis espirituais do povo védico não eram os sacerdotes, embora fossem estes altamente estimados, mas sim os sábios ou videntes ( rishi) que “viam”a verdade, que percebiam com o olho do coração a realidade oculta por trás da cortina de fumaça da existência manifestada. Muitos deles pertenciam a classe sacerdotal mas alguns eram membros das três outras classes sociais. Eram eles os sábios iluminados cuja sabedoria promanou numa poesia rítmica e numa linguagem altamente simbólica: os impressionantes hinos dos Vedas. Esses videntes, que também eram chamados poetas(Kavi), revelavam para o individuo comum e não iluminado a realidade luminosa que brilha por trás de toda a treva espiritual. Mostravam também o caminho que leva a este Ser eterno, que é único ( eka) e não nascido ( aja) mas recebe muitos nomes. Os videntes védicos recebiam suas visões sagradas como recompensa de um trabalho árduo, de muitas asceses e de uma profunda aspiração a iluminação
espiritual.” (Feuerstein, 2001:145)

Na medicina do Rig Veda os médicos, chamados bhishak, pertencem a uma classe profissional. Em um hino fala-se em “cem médicos e mil medicamentos”, a farmacopéia consiste principalmente de plantas medicinais que também são classificadas e suas propriedades mencionadas. Os Asvins, são os famosos médicos dos deuses, os guardiãs das ervas e suas habilidades são extensivamente louvadas. Em um dos hinos do Rig Veda podemos observar o louvor aos médicos dos deuses, os gêmeos Asvins:

“ Ó Asvins que são os curadores dos homens no caminho do bem…vocês curaram, com a infusão fria ( hima ) o calor intenso de Atri, vocês nutriram ele com alimento, e o livraram das cavernas escuras nas quais os demônios o colocaram.” (Rig Veda , em Rao, 1985:111)

Neste verso pode-se ver claramente a relação quente/frio nos tratamentos, no caso possivelmente um quadro febril. Esta abordagem será utilizada posteriormente na medicina indiana clássica ou Ayurveda. Em outro verso do Rig Veda conta-se sobre as diversos ofícios inclusive a profissão médica:

“ Várias são as nossas intenções, e várias também são as vocações que os homens seguem. O carpinteiro procura a madeira; o médico( bishak) procura a doença ( rutam); o sacerdote espreme o suco do Soma…” (Rig Veda, em Rao,1985;118)

Neste verso do Rig Veda observamos que no período védico já existiam diversas profissões inclusive o médico que nesta época era denominado “bishak” posteriormente nos textos clássicos do Ayurveda o médico passa a ser denominado vaidya do mesmo radical sânscrito de Veda ou seja Vid, conhecer. Logo no Ayurveda o médico vaidya torna-se um homem de conhecimento ou sabedoria. Neste outro hino o Rig Veda fala sobre as plantas medicinais:

“ Muito antes do aparecimento dos deuses, mesmo antes das três eras, haviam estas ervas antigas, coloração clara e cento e sete em numero.”… ( Rig Veda, em Rao, 1985:119)

No antigo Rig Veda, além das plantas medicinais, a água é considerada um remédio poderoso. Neste hino podemos observar o louvor ao liquido como remédio:

“ A água (apa) na verdade é um curador ( bheshaji). A água destrói as doenças( amivachatanih), e a água cura todas as (doenças) de todos os seres( sarvasya). Possa esta água atuar como remédio para você e faze-lo feliz.” (Rig Veda,em Rao, 1985:118)

Esta tradição de utilizar a água como medicamento provavelmente tem suas raízes na hidroterapia que era largamente utilizada pela civilização do vale do Indu. Como vimos em Mohenjo-Daro, os banhos eram muito importantes na tradição dos Harappans ( povo que habitava o Vale do Indu no terceiro milênio A C )

Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, acupunturista e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Phramacy, tradicional escola de Ayurveda do sul da Índia. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ, presidente da Associação Brasileira de Ayurveda e autor do livro “ A Tradição do Ayurveda” pela editora Águia Dourada.

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