Na milenar tradição do Ayurveda é dito que existem duas escolas principais: a escola de Charaka-Atreya, de medicina interna, e a escola de Dhanvantari-Susruta que é a escola de cirurgia. O clássico Susruta Samhita é considerado o primeiro livro de cirurgia da história da medicina. Susruta, se é que existiu um médico com este nome, era um cirurgião da antiga Índia, que foi aluno de uma figura mítica chamado Dhanvantari. Bhishagratna na sua tradução do Susruta Samhita para o Inglês coloca:

“ …Quando o santo Dhanvantari, o maior dos poderosos celestiais, encarnou na forma de Divodasa, o rei de Kasi, estava sentado em seu eremitério, cercado pelos sábios;…Susruta e outros lhe falaram o seguinte: “ó senhor, nos aflige muito encontrar os homens…caindo vitimas das doenças, mentais, físicas, traumáticas ou naturais, e lamentavelmente gemendo em agonia como criaturas sem amigos… e nós suplicamos a vós, ó Senhor, para iluminar nossas mentes com o eterno Ayurveda…para que nós possamos aliviar o sofrimento da humanidade como um todo. Bem-aventurança nesta vida e após, é a dádiva deste eterno Ayurveda, e para isto, ó Senhor, nós nos fizemos destemidos para abordá-lo como vossos humildes discípulos. Para eles, respondeu o santo Dhanvantari:“bem-vindos a todos vocês a este bem-aventurado eremitério. Todos vocês são dignos da honra do discipulado.” ( Bhishagratna, 1991: 1 e 2)

Este é o primeiro parágrafo do primeiro capitulo do Susruta Samhita, notamos a forte presença da religião hindu no texto, pois Dhanvantari, na mitologia é o deus da medicina, que encarna como rei em Kasi , cidade de Benares ou Varanasi, “Cidade da Luz’ segundo a tradição fundada pelo deus Shiva, renovador da criação na mitologia hindu. Varanasi é considerada uma das cidades mais antigas do mundo e afirma-se que ela mantem a sua vida religiosa desde o VI século antes de Cristo ou seja justamente no período da vida de Buda. Varanasi ou Kashi é considerada pelos indianos como a cidade mais sagrada do mundo e local de muitos templos e peregrinações religiosas. (Abram e cols., 1996: 322)

Susruta significa “aquele que escutou bem” , e o autor do clássico refere-se a Susruta na terceira pessoa e o descreve como o digno filho de Visvamitra, que é na verdade um nome de família. No Rig Veda existe um sábio autor do hino Gayatri que possui o nome de Visvamitra. Ramachandra Rao   coloca que existiu um Visvamitra descendente deste autor do Rig Veda que era médico e provavelmente o pai de Susruta. Sobre a data do tratado Filliozat afirma:

“ Provisoriamente nós podemos considerar o Susruta Samhita como um trabalho dos últimos séculos antes da nossa era, o qual atingiu a sua forma definitiva nos primeiros séculos da era cristã.” (Filliozat, 1964: 15)
 
A controvérsia com relação as datas antigas é muito grande, e este caso não é uma exceção a esta regra geral. Nós podemos encontrar na literatura de origem indiana diferenças que vão até várias centenas de anos. Ramachandra Rao afirma com relação ao trabalho original do cirurgião Susruta:

“ Pode-se supor que o original Samhita de acordo com os ensinamentos de Dhanvantari-Divodasa era o traballho do velho Susruta que pode ter vivido antes ou durante o século VI A C (como acredita Hoenle) ou mesmo cerca de 1000A C ( como Afirma Mukhopadhyaya). O trabalho foi reformulado, provavelmente, em uma data posterior, nos primeiros séculos da era cristã.”(Rao, 1985: 94)

Como podemos aceitar o trabalho destes autores como fidedignos quando eles discordam por 400 anos? Este é um bom exemplo de como é difícil chegar a uma provável
data com relação aos tratados antigos do Ayurveda. Relembrando as palavras de Svoboda:

         “ Todas as datas são arbitrarias até a época de Gautama 563 A C a 483 A C)” (Svoboda, 1992; 9)

O principal comentario do Susruta Samhita foi escrito por um famoso monge budista chamado Nagarjuna que também era alquimista e filósofo. Com relação a Nagarjina Feuerestein comenta:

   “ O mestre budista Nagarjuna, do século II D C, não foi somente um célebre taumaturgo ( siddha) e alquimista tantrico mas também um gênio filosófico de primeira categoria.” (Feuerstein, 2001: 271)

   Ramachandra Rao refere sobre Nagarjuna:

“ No campo da medicina, ele é reconhecido como ter reescrito todo o Suruta Samhita, que provavelmente estava em um pobre estado de preservação durante os seus dias.” (Rao, 1985: 71)

Este importante personagem da história do Ayurveda, através de seus múltiplos conhecimentos, faz uma conexão, já citada anteriormente nesta monografia, entre a Medicina Indiana, a alquimia tantrica e o budismo. Como vimos a alquimia indiana provavelmente sofreu influencia da alquimia chinesa que estava associada ao taoísmo e a tradição médica na China.

Prana é a energia da vida ligada a respiração, oxigena¬ção e circulação. Governa também todas as funções motoras e sensoriais. A força vital prânica inflama o fogo central cor¬poral (agni). A inteligência natural do corpo é manifestada espontaneamente através de prana. Por exemplo, se uma criança tem deficiência de ferro ou cálcio, a inteligência na¬tural do corpo governada por prana levará a criança a comer lama, que é uma fonte daqueles minerais.

A sede de prana é a cabeça e prana governa todas as atividades cerebrais superiores. As funções da mente, da memória, do pensamento e das emoções estão todas sob o controle do prana. O funcionamento fisiológico do coração também é governado pelo prana, e do coração prana penetra no sangue e então controla a oxigenação em todos os dhatus e órgãos vitais.

Prana governa as funções biológicas das outras duas essências ojas e tejas. Durante a gravidez, o umbigo do feto éa principal porta por onde prima entra no útero e no corpo do feto. Prana governa também a circulação de ojas no feto. Assim, em todos os humanos, mesmo naqueles que ainda não nasceram, um distúrbio do prana pode criar um desequilíbrio de ojas e tejas, e vice-versa.

Ojas é a essência dos sete dhatus ou tecidos corpóreos. E a energia vital que governa o equilíbrio hormonal. O elemen¬to por excelência de shukralartav, que é a essência de todos os dhatus, está localizado no coração. Ojas é a energia vital que controla as funções da vida com a ajuda do prana. Ojas con¬tém os cinco elementos básicos e todas as substâncias dos tecidos corpóreos. É responsável pelo sistema auto-imune e pela inteligência mental.

Porque ojas está relacionada a kapha, o agravamento de kapha desaloja ojas e vice-versa. Ojas, quando desalojada, cria as desordens kapha como diabetes, lassidão dos ossos e juntas, entorpecimento dos membros. Ojas, quando reduzida, irá criar reações-vata, como medo, fraqueza geral, incapacidade da per¬cepção dos sentidos, perda de consciência e morte. Ojas equi¬librada é necessária para a energia e imunidade biológicas.

Ghee ajuda a intensificar ojas. O leite materno promove ojas no corpo da criança, portanto é essencial que a criança receba o leite materno para desenvolver o vigor biológico. Durante o oitavo mês de gravidez, ojas proveniente do corpo da mãe vai para dentro do feto. Assim, se o nascimen¬to for prematuro, antes dessa transferência de ojas, a criança encontrará dificuldade para sobreviver. Esse fenômeno de¬monstra a importância de ojas na manutenção das funções da vida. Assim como ojas é fundamental no início da vida, énecessária também para a longevidade.

No nível psicológico, ojas é responsável pela compaixão, pela paz, pela criatividade e pelo amor. Através de pranayama, disciplina espiritual e técnicas tântricas, a pessoa pode transformar ojas em força espiritual. Essa poderosa energia espiritual cria uma aura ou auréola ao redor da coroa chakra. Uma pessoa que tem ojas fortalecida possui atrativos, olhos brilhantes, sorriso espontâneo e calmo. É plena de energia e poder espirituais. Práticas espirituais e celibato realçam essas qualidades. Aqueles que procuram excessiva satisfação em sexo e masturbação dissipam a energia ojas no momento do orgasmo. O resultado é ojas enfraquecida que afeta diretamente o sistema imunológico. Tal pessoa torna-se vulnerável a males psicossomáticos.

Tejas é a essência de um fogo muito sutil que governa o metabolismo através do sistema de enzimas. Agni, o fogo central no corpo, estimula a digestão, absorção e assimilação do alimento. A transformação posterior dos ingredientes da nutrição nos tecidos sutis é administrada por um nível sutil de energia, pertencente a agni é tejas. Tejas é necessária para a nutrição e transformação de cada dhatu. Cada dhatu tem sua própria tejas, ou dhatu-agni. Essa essência é responsável pelo funcionamento fisiológico dos tecidos sutis.

Quando tejas é agravada, ela consome ojas lentamente reduzindo a imunidade e superestimulando a atividade prânica. Prana agravado produz desordens degenerativas no dhatus. A falta de ojas resulta na superprodução de tecido insalubre, que cria o desenvolvimento de tumores e obstrui o fluxo da energia prânica.

Dieta inadequada, maus hábitos de vida e uso excessivo de drogas causarão um desequilíbrio em tejas. Substâncias que são picantes, acres e penetrantes intensificam tejas dire¬tamente.

Da mesma forma que é essencial para a saúde assegurar o equilíbrio entre o tridosha, os dhatus e os três malas, ou re¬síduos corporais, para a longevidade é importante que prana, ojas e tejas permaneçam equilibrados. Para criar tal equilí¬brio, o processo de rejuvenescimento ensinado pela Ayur¬veda é o mais eficaz.

 

Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, acupunturista e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Phramacy, tradicional escola de Ayurveda do sul da Índia. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ, presidente da Associação Brasileira de Ayurveda e autor do livro “ A Tradição do Ayurveda” pela editora Águia Dourada.

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