No mês de setembro passei 4 semanas na  Gujarat Ayurved University em Jamnagar, noroeste do subcontinente indiano,  estudando Ayurveda, praticando Yoga e meditação. Um dos destaques foram as aulas de Pancha Karma com a dra Rajkala MD e PhD em Ayurveda, médica do Kerala especialista nesta metodologia de bio-purificação do corpo das suas impurezas. Na última semana do curso eu descobri que ela era discípula de uma mestra de meditação e solicitei um encontro para conversarmos sobre sua metodologia de introspecção e autoconhecimento. A minha professora foi muito solicita e marcou o encontro para a ultima noite do curso, antes de viajarmos. Ela disse: “ vamos chamar um auto-rikshaw ( tuc-tuc) ? Quantos alunos irão com você ? respondi : “ apenas eu, os outros brasileiros não podem ir pois tem outras atividades…” Ah então sobe ai na minha garupa e vamos com a minha moto..”. ela gritou, “mas professora na sua garupa?, Reclamei. “Sim, isto mesmo, assim chegamos rapidamente.” OK, respondi, muito a contra gosto subi na moto e ela partiu em alta velocidade pelas ruas estreitas de Jamnagar. Neste momento parece que “caiu a ficha”…”uma mulher casada e com filhos no estado mais tradicional da Índia, com um ocidental na garupa de sua moto em altíssima velocidade” pensei com meus botões, no mínimo serei preso por “atentado ao pudor e aos bons costumes” ou talvez sejamos atropelados por um caminhão ou ônibus desgovernado, me encolhi o máximo que pude e agarrei o banco da moto atrás de mim…

Mas como dizem na Índia: “existem 300 milhões de deuses que protegem os indianos e por que não os ocidentais desavisados…” em 15 minutos, meu medo chegou ao fim,  estávamos chegando ao edifício da mestra, que era simples e com apartamentos pequenos mas confortáveis. Subimos alguns lances de escada e tocamos a campainha. A porta foi aberta por uma senhora de cabelos grisalhos, simpática, com um semblante pacifico e olhar profundo e inquiridor. Olhei a pequena mas simpática sala, havia fotos de vários mestres indianos mas se destacava uma bela imagem de Buda, Ela sentou na minha frente e perguntou: “ por que você ficou interessado em me conhecer ?”respondi de forma sincera que estava escrevendo sobre minhas experiências na Índia e tinha ouvido falar bem do seu trabalho, ao ouvir isto ela rapidamente afirmou “Ah, então eu sou apenas mais um dado estatístico para sua pesquisa ?”  Nossa! Fiquei desconcertadamente sem palavras…a primeira coisa que saiu foi um pedido de desculpas e a afirmação que estava realmente interessado em meditação.

Após o qüiproquó inicial, rapidamente, perguntei sobre sua história de vida e Indumathi, este era o nome dela, pacientemente me contou: “ desde pequena tenho interesse em religião e espiritualidade, meu avô era devoto de Krishna e me ensinou sobre o hinduísmo. Quando eu tinha 17 anos participei de um workshop com o famoso mestre Osho, estive com ele pessoalmente mas pude ver que aquilo não era “ minha xícara de chá”. Mais tarde fui aluna de um professor da linha de Yoga de Sri Aurobindo, não tive identificação e senti que também não era a “ minha xícara de chá”. Muitos anos depois eu era diretora da faculdade de educação de Jamnagar e passei por um estresse enorme ao tentarem me envolver em uma tramoia de corrupção. Eu tinha dores de cabeça insuportáveis, insônia, medo, raiva, ansiedade e irritabilidade. Isto já durava cerca de dois meses, procurei um psiquiatra mas acabei não fazendo o tratamento pois queria algo mais natural. Terminei no consultório de um naturopata ( médico naturalista), durante a conversa ele tinha um olhar que parecia que via através do meu corpo, no final me recomendou um retiro de meditação por 10 dias. Eu topei pois estava me sentindo muito mal. Ao chegar no retiro imaginei que todos deveriam ser pacientes do médico, quando fui a minha primeira entrevista somente falava das minhas mazelas e o instrutor estava apenas interessado na minha prática de meditação. Foi ai que “ caiu a ficha”: descobri que as pessoas ali não eram doentes mas meditadores da técnica de Vipassana. Durante aqueles 10 dias fui assídua na introspecção e terminei a reclusão completamente curada dos meus sintomas que nunca mais voltaram. Nossa! Finalmente encontrei a “minha xícara de chá”…

“Este primeiro retiro aconteceu em 1997, nunca mais deixei de praticar assiduamente e um dia li no boletim local de Vipassana que eu tinha sido indicada para instrutora do método pelos outros professores. Fiquei muito surpresa pois não tinha solicitado nenhuma indicação mas acabei aceitando e foi assim que me tornei um professora de meditação. Esta pratica foi ensinada há muitas centenas de anos atrás pelo próprio Buda mas foi re-introduzida na Índia moderna pelo birmanes S. N. Goenka em 1969, proveniente de uma linhagem de professores budistas de meditação Vipassana da Birmânia ( atualmente denominado Mianmar).” A mestra me causou uma boa impressão: uma pessoa simples, solteira, modesta, carismática e totalmente dedicada a meditação e a musica pois também é professora de citara ( instrumento musical de cordas).

Eu aprendi que uma técnica utilizada no Vipassana é tomar consciência da respiração. A respiração é um objeto de atenção que esta disponível a todos. Experimente isto agora: Sente-se confortavelmente em um quarto silencioso, com a coluna ereta, feche os olhos e apenas observe sua respiração. Sem tentar controlar, como se você estivesse observando a respiração de outra pessoa, ou então, como se estivesse em uma praia deserta olhando para as ondas do mar, indo e voltando, ou seja, uma observação totalmente passiva. Se vierem pensamentos, emoções ou sensações, lentamente e pacientemente volte a observar o ar entrando e saindo pelas narinas. Este método é simples e pode ser praticado por qualquer pessoa e não deve causar nenhuma tensão. Tente praticar diariamente, no mesmo horário, por pelo menos 15 minutos.

A nossa mente passa a maior parte do tempo perdida em fantasias e ilusões, revivendo experiências prazerosas ou dolorosas ou antecipando o futuro com ansiedades ou medos. Com isto nós perdemos a percepção daquilo que está acontecendo no agora, porem o momento presente é o mais importante. Nós não podemos viver no passado ele já foi, nem podemos vivenciar o futuro pois está alem do nosso alcance. Nós somente podemos viver no presente e esta técnica de Vipassana, que nos leva a tomar consciência da nossa respiração, ajuda a manter a nossa mente no eterno presente, o aqui e agora. Este é o momento da nossa transformação através do autoconhecimento. Após uma conversa inspiradora de cerca de 2 horas a mestra olhou profundamente nos meus olhos e afirmou: “ eu vejo que você tem potencial… agora eu prevejo que você irá se tornar instrutor de meditação…”

Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, acupunturista e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Phramacy, tradicional escola de Ayurveda do sul da Índia. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ, presidente da Associação Brasileira de Ayurveda e autor do livro “ A Tradição do Ayurveda” pela editora Águia Dourada.

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