No inicio dos anos 90 a professora dra. Madel T. Luz desenvolveu a categoria “racionalidades médicas” para significar um sistema lógico e teoricamente estruturado, dotados de cinco dimensões interligadas: uma doutrina médica, uma morfologia, uma dinâmica vital, um sistema de diagnose e um sistema de intervenção terapêutica. Segundo esta autora, tais racionalidades, bem como outras práticas tradicionais, podem trazer as seguintes contribuições:

1-     A reposição do sujeito como centro do paradigma médico

2-     A restituição da relação médico-paciente como elemento fundamental da terapêutica

3-     A busca de meios simples, despojados tecnologicamente ( menos dependentes da tecnologia dura), menos caros e entretanto com igual ou maior eficácia em termos curativos nas situações mais gerais e comuns de adoecimento da população

4-     A construção de uma medicina que busque acentuar a autonomia do paciente, e não sua dependência em termos de relação saúde-enfermidade

5-     A afirmação de uma medicina que tenha como categoria central de seu paradigma a categoria saúde e não a de doença

( Luz, 1996)

O projeto coordenado pela professora dra Madel T. Luz, iniciou-se no começo dos anos 90 com a linha de pesquisa “Racionalidades Médicas e Práticas de Saúde”, junto ao Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro-UERJ é pioneiro em pesquisas sobre medicinas não convencionais comparadas. Na primeira fase deste projeto foram identificadas e pesquisadas quatro racionalidades médicas: Biomedicina, Homeopatia, Medicina Chinesa e Ayurveda e ao final construiu-se um quadro resumindo as várias dimensões destes sistemas médicos complexos:

 

Racionalidades Médicas

Medicina Ocidental Homeopatia Medicina Chinesa Ayurveda
Cosmologia Física Newtoniana

Clássica

Cosmologia Ocidental Tradicional ( alquímica) e clássica Cosmologia Taoista ( geração do microcosmo a partir do macrocosmo) Cosmologia Samkhya da criação ( Purusha e Prakriti)
Doutrina Médica Teoria da causalidade da doença e seu combate Teoria da força vital e seu desequilíbrio nos indivíduos Teoria do Yin-Yang, das cinco fases e seu equilíbrio nos indivíduos Teoria dos cinco elementos e dos doshas nos indivíduos
Morfologia Morfologia dos sistemas Organismo material e força vital animadora Teoria dos canais e colaterais, pontos de acupuntura e dos órgãos e vísceras ( Zang Fu) Teoria dos Dhatus ( tecidos) e malas ( excreções)
Fisiologia ou Dinâmica Vital Fisiologia e Fisiopatologia Fisiologia energética, fisiologia dos sistemas, fisiopatologia do medicamento e do adoecimento Fisiologia do Qi, Zang Fu e da dinâmica Yin/Yang Dinâmica dos três doshas e sub-doshas, teoria de ojas ( essência vital) e srotas ( canais)
Sistema de Diagnostico Semiologia: anamnese, exame físico be exames complementares Semiologia: anamnese do desequilíbrio individual. Diagnóstico e remédio da enfermidade individual Semiologia: interrogatório, inspeção, ausculta e olfação e palpação Trividha Pariksha ( as 3 categorias da semiologia): Inspeção, palpação e questionamento
Sistema de Intervenção terapeutica Drogas, cirurgia e higiene Medicamentos homeopáticos e higiene Tui Na, Qi Gong, Tai Chi, Acupuntura, moxabustão, dieta, medicamentos de origem animal, vegetal e mineral Massagem, oleação, sudação, dieta, rotina diária e sazonal, medicamentos de origem animal, vegetal e mineral e panchakarma (as 5 terapias depuradoras)

( Modificado e adaptado de Luz, 1996)

Em 1993 a pesquisadora Evair A. Marques produziu o primeiro texto relacionado ao Ayurveda com o título: “Racionalidades Médicas: Medicina Ayurvedica – Tradicional Arte de Curar da Índia”. Foi, sem duvida, um trabalho pioneiro sobre esta racionalidade médica, no final do texto a autora afirma: “Na Medicina Ayurvedica, a capacidade que o individuo tem de autocurar-se constitui um dos conceitos básicos, razão pela qual os médicos procuram primeiro auscultar o sistema de defesa natural do organismo do doente para ajudá-lo a lutar contra as agressões da qual ele é objeto, de maneira que possa vencê-la com suas próprias forças”( Marques, 1993: 38)

Este trabalho do grupo de pesquisas “ Racionalidades Médicas” vem de encontro com a proposta da Organização Mundial de Saúde ( OMS ou WHO em inglês), que promove e apóia a utilização das medicinas tradicionais ( medicinas tradicionais são aqueles sistemas que possuem centenas de anos de experiência no seu país de origem, como a Medicina Tradicional Chinesa e o Ayurveda) como método alternativo de tratamento das enfermidades. Em 1983 a OMS publicou um texto denominado “Traditional medicine and health care coverage: a reader for health administrators and pratitioners” onde encontramos a seguinte afirmação:

 “Atualmente está amplamente reconhecido que existe um grande potencial na medicina tradicional para contribuir ao cuidado primário a saúde, especialmente em paises em desenvolvimento. Tal potencial é devido a não apenas a aceitação destes sistemas  ao nível das comunidades mas também a sua abordagem simples, não tóxica, menos dispendiosa e testada pelo tempo dos seus medicamentos para alivio das doenças e reabilitação. Alem disto, o fato que um considerável numero de profissionais formalmente e não formalmente treinados de medicina tradicional vive e trabalha em comunidades rurais distantes, enfatiza a necessidade de seriamente considerar, de que maneira eles podem estar associados ao cuidado primário a saúde para alcançar o objetivo universal de saúde para todos no ano 2000. “ (Mustalik em WHO, 1983: 281)

Neste trabalho pioneiro da OMS de 1983 observamos a importância e valorização da utilização das medicinas tradicionais, como a Medicina Chinesa e o Ayurveda, no cuidado primário a saúde. No Brasil nós temos um exemplo de utilização no Sistema Único de Saúde da Medicina Ayurvedica que é o Hospital de Medicina Alternativa ( HMA ) de Goiânia, no estado de Goiás. A historia da chegada do Ayurveda no Brasil é contada pelo dr. Danilo Maciel Carneiro, médico do Hospital de Medicina Alternativa, no seu trabalho pioneiro denominado “Ayurveda – Saúde e Longevidade”:

  “ O Ayurveda chegou oficialmente ao Brasil em 1985, por força de um convenio do Instituto Nacional de Assistência e Previdência Social ( INAMPS) e do Ministério da saúde com o Instituto de Ciência e Tecnologia Maharishi, liderado pelo mestre indiano, mundialmente famoso, Maharishi Mahesh Yogi. Uma vez firmado este convenio ele foi proposto pelo Ministério da Saúde e pelo INAMPS aos diversos estados do Brasil, sendo aceito por três estados brasileiros: Pernambuco, Rio de Janeiro e Goiás. Nos dois primeiros estados, o projeto, após iniciado, foi interrompido precocemente em virtude de discordancias políticas ou ideológicas entre as partes envolvidas no convenio, ou de outros motivos que não nos compete discutir no presente texto. Já no estado de Goiás, o projeto se desenvolveu e, nos anos 1986 e 1987, ocorreu o primeiro curso de Medicina Ayurvedica para profissionais de saúde da rede publica estadual contemplando médicos, farmacêuticos, agrônomos e enfermeiros.

                      A partir de então e até por volta de 1995, mais e dez médicos indianos vieram a Goiânia, em grupos que passavam de dois a quatro anos ensinando e acompanhando os profissionais brasileiros em cursos e estágios práticos…Com seus préstimos eles fundamentaram o Ayurveda em Goiania e deram origem a equipe que hoje perpetua este trabalho em nosso meio…

                      No ano de 1988, deu-se a criação, pelo governo do estado de Goiás, de um centro ambulatorial de referencia em Fitoterapia e Medicina Ayurvédica em Goiânia, que passou a ser conhecido como Hospital de Terapia Ayurvedica. Essa unidade da Secretaria de Estado da Saúde passou a congregar os profissionais que realizaram os cursos de Medicina Ayurvédica promovidos pelo convenio antes mencionado. A primeira diretora geral do então Hospital de Terapia Ayurvedica foi a dra Heloisa Helena Teixeira dos Reis, médica especialista em dermatologia…Ela permaneceu á frente desta unidade, que hoje se denomina Hospital de Medicina Alternativa ( HMA ), até o inicio do ano de 1999…O HMA oferece também serviços nas áreas de Homeopatia e Acupuntura, alem da Fitoterapia e do Ayurveda. Ao todo, até a presente data, cinco cursos de introdução’ ao Ayurveda já foram ministrados pelo HMA, e mais de duzentos profissionais de saúde da rede publica estadual passaram a conhecer esta maravilhosa ciência” ( Carneiro, 2007: 16)

A proposta de um novo paradigma em que as diversas racionalidades médicas trabalhem em conjunto com o objetivo de promover a saúde, prevenir as doenças e tratar os enfermos não é uma utopia. Já temos exemplos, como o citado Hospital de Medicina Alternativa, que isto é possível e viável. Quando nós visitamos este serviço, em 1997 e 1998, fomos recebidos pela sua diretora, dra Heloisa Helena Teixeira dos Reis, observamos o grande numero de plantas medicinais cultivadas no horto, que são utilizadas pela farmácia do Hospital para a formulação de medicamentos fitoterápicos, fundamentados no Ayurveda, distribuídos gratuitamente aos pacientes. O grande diferencial é que as plantas medicinais brasileiras podem ser identificadas e catalogadas segundo a experiência milenar da Medicina Ayurvedica. Este modelo que funciona, há mais de 20 anos em Goiânia, deveria ser copiado em outras capitais brasileiras para beneficio da nossa população de baixa renda que muitas vezes não tem acesso as medicinas não convencionais.

 

Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, acupunturista e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Phramacy, tradicional escola de Ayurveda do sul da Índia. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ, presidente da Associação Brasileira de Ayurveda e autor do livro “ A Tradição do Ayurveda” pela editora Águia Dourada.

Últimos posts por Aderson Moreira da Rocha (exibir todos)

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *