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1.Introdução

Segundo o Samkhya – a filosofia pré-védica que embasa o Yoga e o Ayurveda e que classifica e estuda todo o processo da manifestação do universo – a criação começa a partir da interação de um princípio espiritual, transcedental – Purusha, com um princípio vital, material – Prakriti.

A partir daí, nossos estudos nos defrontaram com três leituras diferentes daquilo que o Samkhya, em sua ciência enumerativa, chama de Tattwas – que significa fatores, elementos, e também Verdade.

2.Segundo H.Zimmer

A partir da manifestação de Prakriti com suas gunas, surge o nível Causal – Buddhi / Mahat – a potencialidade suprapessoal das experiências. De Buddhi manifesta-se Ahamkara, o ego, cuja função é apropriar-se dos dados da consciência e errôneamente atribui-los ao Purusha. De Ahamkara manifestam-se :
* Manas (a mente, a faculdade de pensamento)
* os 5 Jñana indriyas (faculdades dos sentidos )
* os 5 Karma indriyas (faculdades da ação)
* os 5 Tanmatras (os elementos sutís, primários, compreendidos como as contrapartes internas e sutís das 5 experiências sensoriais, a saber : som, tato, cor e forma, sabor e odor – shabda, sparsha,rupa,rasa,gandha)
* os parama-anu (átomos sutis dos quais temos consciencia nas experiências do corpo sutil
* os sthula bhuta ( os cinco elementos densos : éter, ar, fogo, água e terra, que constituem o corpo denso e o mundo visível e tangível, dos quais temos conhecimento pelas experiências sensoriais).

3. Segundo Dr. Vasant Lad

Da interação Purusha / Prakriti manifesta-se Mahat, que manifesta Ahamkara, e deste manifestam-se as três Gunas. De Sattwa, manifestam-se: as cinco faculdades dos sentidos (órgãos de percepção): ouvidos, pele, olhos, língua, nariz; os cinco órgãos motores (órgãos de ação): boca, mãos, pés, órgãos reprodutores, órgãos excretores; e a Mente, um órgão da percepção e da ação. De Tamas manifestam-se: som (guna do éter – akasha), tato (guna do ar – vayu, visão (guna do fogo – agni ou tejas), paladar (guna da água – apah ou jala) e olfato (guna da terra – prithivi). Rajas não manifesta nenhum tattwa em especial.

4.Segundo Shri Shankaracharya

A partir da manifestação das Gunas – dando inicio a Pancikaranam, o processo de densificação dos elementos – surgem progressivamente os 5 Tanmatras (elementos sutis) : akasha , vayu, tejas, apah e prithivi.

Cada Tanmatra divide-se em 3 partes : uma sattwica, uma rajásica uma tamásica. A parte Tamas, por sua vez divide-se em duas partes, sendo que uma delas divide-se em quatro partes, cabendo a cada parte um elemento, alternadamente.

Do aspecto sattwico do tanmatra akasha, manifesta-se o jñana indriya ouvido. Do aspecto sattwico do tanmatra vayu, manifesta-se o jñana indriya tato. Do Sattwa de apah, manifesta-se o jñana indriya paladar. Do Sattwa de prithivi, manifesta-se o olfato. Da soma do Sattwa dos cinco Tanmatras manifesta o Antakarana (Manas-mente, Buddhi-intelecto e Ahamkara-ego).

Do aspecto rajasico do tanmatra akasha manifesta-se o karma indriya fala. Do aspecto rajasico do tanmatra vayu manifesta-se o karma indriya mãos. Do Rajas de apah manifesta-se o karma indriya ânus. Do Rajas e prithivi manifestam-se os genitais. Da soma do Rajas dos cinco tanmatras manifestam-se os cinco pranas (akasha-udana, vayu-prana, tejas-samana, apah-vyana e prithivi-apana)

Da soma do Tamas dos cinco tanmatras manifestam-se os cinco mahabhutas correspondentes (éter,ar,fogo,água,terra).

5.Conclusão

Óbviamente que a aparente incoerência entre as 3 visões acima apresentadas – fato absolutamente corriqueiro quando se estuda filosofia oriental – reflete não uma suposta fragilidade dos sistemas filosóficos hindus ou alguma maluquice dos três autores, e sim a enorme liberdade especulativa e experimentadora característica do universo oriental.

Esta liberdade fundamenta-se não somente em função de uma enorme quilometragem de reflexão e experienciação (10.000 anos é bastante tempo) , mas também da profunda compreensão de que, se por um ponto de vista somos todos seres individuais, singulares, visto por outro prisma somos absolutamente unos. E só a reintegração desta singularidade pode proporcionar o acesso ao outro ponto de vista , isto é, à experimentação do total, do pleno, da felicidade. Esta premissa dialética básica – a relação dualidade / unidade (relativo / absoluto) é o principal fundamento do Veda, e a partir daí desdobra-se todo um universo de conhecimentos teóricos e práticos, mitológicos, teológicos, filosóficos e psicológicos, cujo objetivo é suprir justamente a demanda da nossa singularidade rumo ao Uno.

É óbvio que uma só religião ou uma só filosofia não poderiam funcionar para todos, em todos os tempos. Cada um é um microcosmo absolutamente ímpar, e para cada natureza deve haver uma leitura, um método, uma forma de caminhar rumo à um mesmo centro.

Esse magnífico mosaico milenar que é a cultura védica, manteve-se ao longo dos milênios intuindo, desdobrando, experimentando e desenvolvendo técnicas, métodos e visões filosóficas de diversos níveis e abrangências.

As três visões do Samkhya aqui apresentadas refletem este espírito investigativo característico, onde prática, conhecimento e intuição , são as grandes ferramentas para compreensão dos textos antigos. E aí, ao longo das eras, os sábios foram relendo, adaptando, resumindo ou ampliando os comentários dos textos originais, sempre buscando atender à esta diversidade inerente ao ser humano, e também seguindo a própria natureza do homem que é sempre fundamentar sua exposição ou comentário sobre qualquer assunto, em sua própria experiência interna. Aliás, uma característica dos Vedas é terem sido elaborados para serem decifrados e comentados por aqueles que tiveram a experiência do Um, seguindo assim a idéia de “realize, depois ensine” , o que manteve no decorrer dos séculos a pureza dos ensinamentos.

Como não há uma conclusão formal, sugiro a reflexão sobre o tema presente buscando estudar e compreender – e intuir – os aspectos simbólicos (arquetípicos) que permeiam os tattwas e os processos de seu desdobramento.

 


 

BIBLIOGRAFIA

1. Filosofias da India: Heinrich Zimmer – Ed. Palas Athena
2. Ayurveda, Ciência da Auto-cura: Dr. Vasant Lad – Ed. Ground
3. Tattwabodha: Sri Shankaracharya (tradução de Glória Arieira)
4. Os segredos do Tantra e do Yoga: Paulo Murilo Rosas

Na milenar tradição do Ayurveda é dito que existem duas escolas principais: a escola de Charaka-Atreya, de medicina interna, e a escola de Dhanvantari-Susruta que é a escola de cirurgia. O clássico Susruta Samhita é considerado o primeiro livro de cirurgia da história da medicina. Susruta, se é que existiu um médico com este nome, era um cirurgião da antiga Índia, que foi aluno de uma figura mítica chamado Dhanvantari. Bhishagratna na sua tradução do Susruta Samhita para o Inglês coloca:

“ …Quando o santo Dhanvantari, o maior dos poderosos celestiais, encarnou na forma de Divodasa, o rei de Kasi, estava sentado em seu eremitério, cercado pelos sábios;…Susruta e outros lhe falaram o seguinte: “ó senhor, nos aflige muito encontrar os homens…caindo vitimas das doenças, mentais, físicas, traumáticas ou naturais, e lamentavelmente gemendo em agonia como criaturas sem amigos… e nós suplicamos a vós, ó Senhor, para iluminar nossas mentes com o eterno Ayurveda…para que nós possamos aliviar o sofrimento da humanidade como um todo. Bem-aventurança nesta vida e após, é a dádiva deste eterno Ayurveda, e para isto, ó Senhor, nós nos fizemos destemidos para abordá-lo como vossos humildes discípulos. Para eles, respondeu o santo Dhanvantari:“bem-vindos a todos vocês a este bem-aventurado eremitério. Todos vocês são dignos da honra do discipulado.” ( Bhishagratna, 1991: 1 e 2)

Este é o primeiro parágrafo do primeiro capitulo do Susruta Samhita, notamos a forte presença da religião hindu no texto, pois Dhanvantari, na mitologia é o deus da medicina, que encarna como rei em Kasi , cidade de Benares ou Varanasi, “Cidade da Luz’ segundo a tradição fundada pelo deus Shiva, renovador da criação na mitologia hindu. Varanasi é considerada uma das cidades mais antigas do mundo e afirma-se que ela mantem a sua vida religiosa desde o VI século antes de Cristo ou seja justamente no período da vida de Buda. Varanasi ou Kashi é considerada pelos indianos como a cidade mais sagrada do mundo e local de muitos templos e peregrinações religiosas. (Abram e cols., 1996: 322)

Susruta significa “aquele que escutou bem” , e o autor do clássico refere-se a Susruta na terceira pessoa e o descreve como o digno filho de Visvamitra, que é na verdade um nome de família. No Rig Veda existe um sábio autor do hino Gayatri que possui o nome de Visvamitra. Ramachandra Rao   coloca que existiu um Visvamitra descendente deste autor do Rig Veda que era médico e provavelmente o pai de Susruta. Sobre a data do tratado Filliozat afirma:

“ Provisoriamente nós podemos considerar o Susruta Samhita como um trabalho dos últimos séculos antes da nossa era, o qual atingiu a sua forma definitiva nos primeiros séculos da era cristã.” (Filliozat, 1964: 15)
 
A controvérsia com relação as datas antigas é muito grande, e este caso não é uma exceção a esta regra geral. Nós podemos encontrar na literatura de origem indiana diferenças que vão até várias centenas de anos. Ramachandra Rao afirma com relação ao trabalho original do cirurgião Susruta:

“ Pode-se supor que o original Samhita de acordo com os ensinamentos de Dhanvantari-Divodasa era o traballho do velho Susruta que pode ter vivido antes ou durante o século VI A C (como acredita Hoenle) ou mesmo cerca de 1000A C ( como Afirma Mukhopadhyaya). O trabalho foi reformulado, provavelmente, em uma data posterior, nos primeiros séculos da era cristã.”(Rao, 1985: 94)

Como podemos aceitar o trabalho destes autores como fidedignos quando eles discordam por 400 anos? Este é um bom exemplo de como é difícil chegar a uma provável
data com relação aos tratados antigos do Ayurveda. Relembrando as palavras de Svoboda:

         “ Todas as datas são arbitrarias até a época de Gautama 563 A C a 483 A C)” (Svoboda, 1992; 9)

O principal comentario do Susruta Samhita foi escrito por um famoso monge budista chamado Nagarjuna que também era alquimista e filósofo. Com relação a Nagarjina Feuerestein comenta:

   “ O mestre budista Nagarjuna, do século II D C, não foi somente um célebre taumaturgo ( siddha) e alquimista tantrico mas também um gênio filosófico de primeira categoria.” (Feuerstein, 2001: 271)

   Ramachandra Rao refere sobre Nagarjuna:

“ No campo da medicina, ele é reconhecido como ter reescrito todo o Suruta Samhita, que provavelmente estava em um pobre estado de preservação durante os seus dias.” (Rao, 1985: 71)

Este importante personagem da história do Ayurveda, através de seus múltiplos conhecimentos, faz uma conexão, já citada anteriormente nesta monografia, entre a Medicina Indiana, a alquimia tantrica e o budismo. Como vimos a alquimia indiana provavelmente sofreu influencia da alquimia chinesa que estava associada ao taoísmo e a tradição médica na China.

Prana é a energia da vida ligada a respiração, oxigena¬ção e circulação. Governa também todas as funções motoras e sensoriais. A força vital prânica inflama o fogo central cor¬poral (agni). A inteligência natural do corpo é manifestada espontaneamente através de prana. Por exemplo, se uma criança tem deficiência de ferro ou cálcio, a inteligência na¬tural do corpo governada por prana levará a criança a comer lama, que é uma fonte daqueles minerais.

A sede de prana é a cabeça e prana governa todas as atividades cerebrais superiores. As funções da mente, da memória, do pensamento e das emoções estão todas sob o controle do prana. O funcionamento fisiológico do coração também é governado pelo prana, e do coração prana penetra no sangue e então controla a oxigenação em todos os dhatus e órgãos vitais.

Prana governa as funções biológicas das outras duas essências ojas e tejas. Durante a gravidez, o umbigo do feto éa principal porta por onde prima entra no útero e no corpo do feto. Prana governa também a circulação de ojas no feto. Assim, em todos os humanos, mesmo naqueles que ainda não nasceram, um distúrbio do prana pode criar um desequilíbrio de ojas e tejas, e vice-versa.

Ojas é a essência dos sete dhatus ou tecidos corpóreos. E a energia vital que governa o equilíbrio hormonal. O elemen¬to por excelência de shukralartav, que é a essência de todos os dhatus, está localizado no coração. Ojas é a energia vital que controla as funções da vida com a ajuda do prana. Ojas con¬tém os cinco elementos básicos e todas as substâncias dos tecidos corpóreos. É responsável pelo sistema auto-imune e pela inteligência mental.

Porque ojas está relacionada a kapha, o agravamento de kapha desaloja ojas e vice-versa. Ojas, quando desalojada, cria as desordens kapha como diabetes, lassidão dos ossos e juntas, entorpecimento dos membros. Ojas, quando reduzida, irá criar reações-vata, como medo, fraqueza geral, incapacidade da per¬cepção dos sentidos, perda de consciência e morte. Ojas equi¬librada é necessária para a energia e imunidade biológicas.

Ghee ajuda a intensificar ojas. O leite materno promove ojas no corpo da criança, portanto é essencial que a criança receba o leite materno para desenvolver o vigor biológico. Durante o oitavo mês de gravidez, ojas proveniente do corpo da mãe vai para dentro do feto. Assim, se o nascimen¬to for prematuro, antes dessa transferência de ojas, a criança encontrará dificuldade para sobreviver. Esse fenômeno de¬monstra a importância de ojas na manutenção das funções da vida. Assim como ojas é fundamental no início da vida, énecessária também para a longevidade.

No nível psicológico, ojas é responsável pela compaixão, pela paz, pela criatividade e pelo amor. Através de pranayama, disciplina espiritual e técnicas tântricas, a pessoa pode transformar ojas em força espiritual. Essa poderosa energia espiritual cria uma aura ou auréola ao redor da coroa chakra. Uma pessoa que tem ojas fortalecida possui atrativos, olhos brilhantes, sorriso espontâneo e calmo. É plena de energia e poder espirituais. Práticas espirituais e celibato realçam essas qualidades. Aqueles que procuram excessiva satisfação em sexo e masturbação dissipam a energia ojas no momento do orgasmo. O resultado é ojas enfraquecida que afeta diretamente o sistema imunológico. Tal pessoa torna-se vulnerável a males psicossomáticos.

Tejas é a essência de um fogo muito sutil que governa o metabolismo através do sistema de enzimas. Agni, o fogo central no corpo, estimula a digestão, absorção e assimilação do alimento. A transformação posterior dos ingredientes da nutrição nos tecidos sutis é administrada por um nível sutil de energia, pertencente a agni é tejas. Tejas é necessária para a nutrição e transformação de cada dhatu. Cada dhatu tem sua própria tejas, ou dhatu-agni. Essa essência é responsável pelo funcionamento fisiológico dos tecidos sutis.

Quando tejas é agravada, ela consome ojas lentamente reduzindo a imunidade e superestimulando a atividade prânica. Prana agravado produz desordens degenerativas no dhatus. A falta de ojas resulta na superprodução de tecido insalubre, que cria o desenvolvimento de tumores e obstrui o fluxo da energia prânica.

Dieta inadequada, maus hábitos de vida e uso excessivo de drogas causarão um desequilíbrio em tejas. Substâncias que são picantes, acres e penetrantes intensificam tejas dire¬tamente.

Da mesma forma que é essencial para a saúde assegurar o equilíbrio entre o tridosha, os dhatus e os três malas, ou re¬síduos corporais, para a longevidade é importante que prana, ojas e tejas permaneçam equilibrados. Para criar tal equilí¬brio, o processo de rejuvenescimento ensinado pela Ayur¬veda é o mais eficaz.

 

“O elemento Água é a base para a experiência sensorial do paladar;
a língua precisa estar molhada para sentir o sabor de uma substância.”
                                                       Dr. Vasant Lad

Sabor em sânscrito significa rasa, que por sua vez tem muitos significados. Todos eles nos ajudam a entender a importância de sabor em Ayurveda. Rasa quer dizer “essência”; o sabor indica a essência de um alimento ou planta, e é talvez o fator principal para compreender suas qualidades. Rasa quer dizer “seiva” de forma que o sabor de um alimento ou planta reflete as propriedades da seiva que os alimenta. Rasa quer dizer “apreciação”; visto desse modo, o sabor reflete sentimento que novamente é a essência das substâncias. Através do sabor podem ser percebidos a beleza e poder dos alimentos ou das plantas medicinais. Rasa quer dizer “circulação” o que reflete o poder energizante dos sabores.

Existem seis sabores ou rasas: doce, ácido, amargo, salgado, picante e adstringente. Aqui os elementos fundamentais combinam-se dois a dois para produzir cada um deles. O sabor doce contém os elementos Terra e Água; o ácido, Terra e Fogo; o salgado, Água e Fogo. O sabor picante contém Fogo e Ar; o amargo, Ar e Éter e o adstringente, Ar e Terra.

DOCE                                 Terra e Água
ÁCIDO                               Terra e Fogo
PICANTE                          Fogo e Ar
AMARGO                          Ar e Éter
SALGADO                         Água e Fogo
ADSTRINGENTE            Ar e Terra

A fisiologia moderna não aceita os sabores adstringente e picante como sabores separados; eles são considerados apenas como efeitos produzidos por certos componentes presentes nos alimentos (ou medicamentos) sobre a pele e membranas mucosas. Porém , em Ayurveda eles são tratados como sabores específicos.

O sabor é uma qualidade de toda substância. Cada substância pode ter um ou mais sabores, que se tornam conhecidos quando a substância é colocada na língua. O primeiro sabor claramente identificado é conhecido como sabor primário e os restantes, reconhecidos mais tarde, são secundários, em geral mais suaves. Doce, ácido e salgado são sabores que diminuem vata e aumentam kapha. Picante, amargo e adstringente diminuem kapha e aumentam vata. Ácido, salgado e picante aumentam pitta. Doce, amargo e adstringente diminuem pitta.

Com o sentido do gosto nós interagimos com os alimentos que comemos. Cada gosto ou sabor afeta o corpo e a mente de formas diferentes. Cada um deles tem seus benefícios e até malefícios, se utilizados em excesso. O sabor doce, por exemplo, é muito nutritivo, constrói os tecidos, aumenta a força, mas quando em excesso leva ao ganho excessivo de peso, à preguiça mental, ao diabetes e outras complicações.

Em Ayurveda nós não contamos calorias, gramas de gordura ou índice de colesterol do alimento. Numa perspectiva ayurvédica devemos aprender quais sabores são bons pra nós, assim poderemos comer alimentos que estejam em harmonia com nossa constituição e o corpo responderá com saúde. Alguns se beneficiam do alimento quente e condimentado, enquanto outros se sentem melhor com uma alimentação mas leve e fria. Há pessoas que beneficiam-se da carne, enquanto outras produzem melhor sendo vegetarianas. O mais importante de tudo é saber identificar, de acordo com nossa natureza básica, que tipo de alimento devemos comer e quais devemos evitar, para manter o equilíbrio em nossa saúde.
Potência (virya)

Potência é o aspecto ou fator da substância que é responsável pelas ações desta no corpo humano. As qualidades de força ou potência das substâncias são duas: calor e frio. De uma forma geral, podemos afirmar que os sabores ácido, salgado e picante têm potência quente; já doce, amargo e adstringente apresentam potência fria. Existem exceções, como o mel, que tem sabor doce e potência quente.
Efeito pós-digestivo (vipaka)

Durante o curso da digestão, ingredientes do alimento ou medicamento passam por diferentes estágios de transformação por causa da ação enzimática no trato digestivo. Dessas tranformações emergem “novos sabores” que podem ser doce, ácido ou picante.
De um modo geral, o doce e o salgado apresentam vipaka doce; o sabor ácido tem vipaka ácido e o picante, o amargo e o adstringente têm vipaka picante.
Ação específica (prabhava)

Algumas drogas agem com base em seus sabores, algumas com base em sua potência e outras com base em seu vipaka. Algumas substâncias entretanto exercem uma ação específica, inexplicável no organismo e não levam em consideração nenhum destes conceitos acima. Para reconhecer esta ação, Caraka usou o termo prabhava, que significa “ação específica”: duas susbtâncias podem ser parecidas em sabor, potência e vipaka mas suas ações poderão ser diferentes uma da outra.

Sem compreender nossa constituição particular, nossa saúde enfraquece e sobrevém a doença. O que se observa é que não há uma medicina que identifique adequadamente todas as variantes que existem entre as pessoas, tratando-as de modo diferenciado. Infelizmente a medicina convencional costuma dar mais atenção às doenças do que aos doentes. O Ayurveda, ao contrário, reconhece os tipos individuais e nos ajuda a entender nossas particularidades, nossas tendências.

O Homem apresenta três modelos constitutivos básicos, expressões condensadas dos Cinco Elementos fundamentais. Estes modelos são princípios básicos ou humores conhecidos como doshas ou tridoshas – Kapha, Pitta e Vata – conceitos únicos do Ayurveda, e podem ser definidos como mecanismos que governam
nosso fluxo de inteligência e de energia.

A partir dos elementos Éter e Ar, manifesta-se Vata (vata dosha), representado pelo ar corporal, pelas cavidades. Pitta (pitta dosha) é formado a partir dos elementos Fogo e Água e manifesta-se no organismo como o fogo digestivo. Os elementos Terra e Água resultam na água corporal e formam o kapha dosha. Os doshas são substâncias sempre presentes no corpo, sendo continuamente renovadas; têm sua quantidade, qualidade e funções definidas. Quando normais, desempenham as diferentes funções do corpo e o mantém. Os doshas, porém, têm a tendência de se tornarem anormais, passando por aumentos ou diminuições de sua quantidade, qualidades e funções. Quando se tornam anormais, contaminam sua moradia – os tecidos (dhatus) – e contribuem para o surgimento de doenças. Todos os três doshas estão presentes no ser humano, em cada célula do corpo, desde o momento da concepção; as diferentes constituições são resultantes das percentagens relativas entre vata-pitta-kapha.
Assim, existem 7 constituições básicas:
1. vata,
2. pitta,
3. kapha,
4. vata-pitta,
5. pitta-kapha,
6. vata-kapha e
7. vata-pitta-kapha.
As três primeiras (formas puras) e a última (forma totalmente equilibrada) são mais difíceis de se encontrar. Em geral, as pessoas possuem 2 doshas predominantes. Como já mencionado, em todas as células existem os três doshas, em diferentes proporções, porém eles são encontrados predominantemente em certos lugares: o lugar preferencial de Vata é abaixo da região umbilical; o de Pitta é entre as regiões cardíaca e umbilical e o de Kapha é acima da região cardíaca. Mesmo estando predominantemente nas regiões citadas, eles permeiam o corpo todo.

Cada um dos doshas é mais ativo nas diferentes fases da vida do ser humano; Vata predomina após os 60 anos; Pitta entre os 20 e 60 anos, e Kapha predomina do nascimento até os 20 anos.

Os doshas também possuem caráter cíclico, variando as suas proporções relativas, independente da constituição básica do indivíduo: Vata predomina mais à tarde (entre 15 e 19h). Pitta é mais predominante no meio do dia (entre 11 e 15 h) e entre 24 e 2 h. Vata concentra-se principalmente no período entre 6 e 10h da manhã e entre 19 e 23h.

O Characa Samhita é considerado o mais importante texto do Ayurveda que chegou aos nossos dias. Nas palavras de Sharma e Dash tiradas da introdução da sua tradução para o inglês :

“ Alguns dos antigos textos do Ayurveda não estão disponíveis. Entre os textos existentes, O Characa-Sanhita de Agnivesa,o Susruta-Samhita de Susruta e o Ashtanga-Hrdrayam de Vagbhata são reconhecidos como o “Grande Trio”. Destes três Characa é considerado a maior autoridade, desde que representa um tesouro autentico dos vários aspectos desta ciência, com especial referente aos princípios fundamentais da medicina.” (Sharma e Dash, 1995:xxi)

O Charaka_Samhita é considerado o mais importante texto do Ayruveda, e também um dos mais antigos. Está dividido em 120 capítulos assim como os outros clássicos de Vagbhata, Bhela e Susruta. Parace que este número tem alguma importância entre os autores antigos.

Como nós vimos o Ayurveda foi incorporado a tradição védica e quando esta “hindunização” do Ayurveda ocorreu a mitologia hindu foi naturalmente agregada a obra então no Characa afirma-se que este sistema médico veio diretamente de Brahma, o criador, deste o conhecimento passou para os deuses ate chegar a Indra, rei dos deuses, que teve a missão de transmitir esta sabedoria a Bharadvaja que foi o primeiro médico-sábio da tradição do Charaka-Sanhita. Nesta tradição este sábio foi escolhido para receber o
conhecimento do deus Indra e foi o mestre de Atreya,quem dissertou o Charaka-Sanhita para seu discípulo Agnivesa. Sobre esta relação mestre-discipulo, Ramachandra Rao afirma:

“ O Atreya da tradição médica é dito ser um estudante de um outro sábio Bharadvaja, que aprendeu a medicina de Indra…O Bhava-prakasa relata que, ambos, Bharadvaja e Atreya aprenderam medicina de Indra em ocasiões diferentes. Há também uma referencia que Bharadvaja é um discípulo de Atreya, Chakrapani-Datta afirma que algumas pessoas erradamente identificam Atreya com Bharadvaja e refere-se a uma antiga autoridade, Harita, que coloca que Bharadvaj era o professor de Atreya….Na tradição médica de Kayachikitsa, ( medicina interna) a seqüência das autoridades médicas na Índia é a seguinte: Brahma , Asvins, Indra, Bharadvaja, Atreya ( purnavasu) e os seus seis discípulos: Agnive-sa, Jatukarna, Bhela, Harita, Khsarapani e Parasara. Cada um destes discípulos escreveu um tratado médico com os ensinamentos de Atreya. No decorrer do tempo, Apenas o tratado de Agnivesa sobreviveu, sendo o mais compreensível, Charaka segue esta linha e seu Samhita é a redação do trabalho original de Agnivesa, e é por isto que Charaka sempre menciona o nome de Atreya com o res-peitável adjetivo de “bhagavan”.” ( Rao, 1985: 27)

Com esta afirmação de Ramachandra Rao baseado no Charaka Samhita observamos o sincretismo do Ayurveda, inicialmente fora do cânone védico, com os deuses do hinduismo, ou seja, dentro da tradição brâmane. Brahma, o criador, segundo Charaka foi quem criou, ele mesmo o Ayurveda, a ciência da vida, e passou para os médicos dos deuses, os gêmeos Asvins que teriam transmitido o conhecimento ao rei dos deuses Indra, este sim ensinou a medicina ao sábio Bharadvaja. Bharadvaja, escolhido como o sábio melhor preparado foi ate Indra e recebeu a ciência da vida, Ayurveda, que transmitiu a Atreya. Cada capítulo do Charaka Samhita inicia-se com a frase: “ Aquilo que segue é o que o reverenciado Atreya falou”, na verdade todo o texto é uma discussão entre Atreya e seu discípulo Agnivesa. Este texto foi recompilado por Charaka. Sharma e Dash tradutores do Charaka Samhita colocam:

“O sábio Atri é referido no Rig Veda e Atharva Veda, como o vidente dos hinos védicos. Por conseguinte o Agnivesa Samhita foi talvez escrito sob a guia de Atreya em algum momento em torno de 1000 A C” (Sharma e Dash,1995:xxxvi)

Esta colocação é um exemplo típico dos autores indianos, que fazem afirmações que não podem ser referendadas pela literatura. Existem vários personagens na literatura de origem indiana com nome de Atreya. O médico de Buda, Jivaka, estudou em Taxila com um mestre chamado Atreya, provavelmente no século VI ou V A C. Mas provavelmemte não foi ele que ditou o Charaka Samhita pois não existe referencia a Agnivesa, seu discípulo na literatura budista primitiva. Se o Atreya do Rig Veda e do Atherva Veda é o mesmo do Ayurveda, então por que não existem referencias ao Ayurveda naqueles textos?

A reposta é muito simples: os textos do Ayurveda são posteriores, inclusive na literatura do período védico tardio, ou seja antes da época de Buda, século VI A C, não há referencias ao Ayurveda. Não há como precisar uma data para Atreya e seu discípulo Agnivesa que tenha respaldo na literatura de origem indiana. Com relação a isto Filliozat coloca:

“ Pode-se admitir que um ou mais Atreyas, tradicionalmente conhecidos como médicos eminentes, existiram, mas não se pode admitir que Atreya Purnavasu que é dito ter recebido a ciência da medicina do mítico Bharadvaja foi o Atreya que nas fontes budistas é o contemporâneo de Buda. As lendas das origens do Ayurveda, como encontrados nos dois Samhitas, Charaka e Susruta, não pare-cem estar embasados em nenhum fato histórico. Elas parecem ter sido criados a partir de conjecturas, baseadas em datas da tradição védica relacionadas aos deuses médicos, e aos mestres bramanicos.” ( Filliozat, 1964: 11)

É provável, como colocou Filliozat, que a tradição ayurvedica durante o processo de “hindunização” tenha se mesclado a mitologia e a religião védica formando um sincretismo entre as tradições não brâmanicas, fora de castas, e a tradição dos Vedas. Porem autores hindus, sem levar em conta esta possibilidade, colocam datas do Rig e Atharva Vedas para os autores clássicos da Medicina Indiana, sem fatos ou referencias históricas ratificando as suas afirmações.

Charaka vem da raiz car que significa mover-se, provavelmente Charaka era um médico errante, que propagava o seu conhecimento e dava alivio aos seus pacientes.Havia também um médico da corte do rei Kaniska, século II da nossa era, que se chamava Charaka. Provavelmente este não era o mesmo médico que escreveu o famoso tratado. Com relação a identidade de Charaka Ramachandra Rao afirma:

“ A identidade de Charaka é inteiramente incerta. Nós não estamos certos se este era o nome pessoal de um autor que foi o principal responsável pela atual versão do Charaka Samhita. Foi sugerido (em Brhajjaka) que o médico especialista, que viajava de aldeia em aldeia, não apenas administrando remédios mas também ensinando a ciência médica era chamado de Charaka ( médico errante) pelas pessoas, assim como o cirurgião era conhecido como “Dhanvantari”. (Rao, 1985: 44)

Esta colocação de Ramachandra Rao nos faz lembrar a tradição dos Sramanas que, como médicos, ascetas errantes e filósofos levavam os seus conhecimentos de aldeia em aldeia aliviando o sofrimento das pessoas. Porem Ramachandra Rao vai mais longe fazendo uma ponte entre o termo Charaka e a antiga tradição budista:

“ Na tradição budista primitiva haviam referencias aos “eruditos errantes” sendo admitidos nas instituições educacionais, como Taxila, como “estudantes casuais” ( charikam charantã ). Taxila na parte noroeste do país tinha também uma faculdade médica que era chefiada por um Atreya, e foi onde o famoso contempora-neo de Buda, Jivaka, o pediatra, foi estudante. Charaka, mesmo, durante os séculos antes de Cristo era um termo significando médico errante e professor médico” ( Rao, 1985: 44)

Com esta colocação de Ramachendra Rao podemos fazer uma possível ligação entre a tradição de Charaka, do clássico Ayurveda, a escola budista antiga e os médicos errantes Sramanas todos fora de castas ou não védicos, a partir do momento que os textos védicos colocavam o médico como impuro e a profissão médica como inadequada ao Brâmane pois exigia o contato com todos os tipos de pessoas inclusive os das castas inferiores e os sem castas. Podemos lançar a hipótese que esta exclusão, da religião hegemônica, tenha aproximado estas tradições heterodoxas e propiciado a troca de conhecimentos e experiências que resultou em uma escola empírico-racional que posteriormente ficou conhecida como Ayurveda. Apesar da base do Ayurveda ser empirico-racional, este nunca abandonou completamente a medicina mágico-religiosa caracterizada pelo Atharva-Veda. Podemos confirmar isto na tradução de Sharma e Dash do Charaka Samhita:

“ O Ayurveda tem oito ramos:
1-Medicina Interna
2-Ciência das doenças especificas da região supra-clavicular: olhos, nariz, ouvido, boca e garganta.
3-Cirurgia
4-Toxicologia
5-Ciência do ataque demoníaco ( psicologia)
6-Pediatria
7-Ciência do rejuvenescimento
8-Ciência dos afrodisíacos”
     (Sharma e Dash, 1995:603)

A “ciência do ataque demoníaco” faz parte da medicina mágico-religiosa dos Vedas, talvez este seja o ramo do Ayurveda que tenha suas raízes naquilo que o Iogue Ramacharaca chamou de “magia branca e magia negra”do Atharva Veda.

O Charaka Samhita introduziu o conceito de Dosha, literalmente defeito, é interpretado como desequilíbrio ou disfunção : Segundo Charaka os doshas do corpo são Vata, Pitta e Kapha e os da mente Rajas e Tamas. Vata é áspero, frio, sutil, móvel, não gorduroso e leve. Pitta é oleoso, quente, agudo, liquido, ácido, e picante e Kapha tem as seguintes qualidades: pesado, frio, macio, oleoso e doce são melhorados por medicamentos que tem qualidades opostas.
O Ayurveda faz uma relação entre os cinco elementos chamados de Panchamahabhutas e os Doshas. Então Vata é formado pelos elementos ar e espaço e Pitta por fogo e água, já Kapha possui água e terra. O corpo humano possui os três Doshas e os cinco elementos e é o aumento ou diminuição destes que levam ao desequilíbrio e as doenças.

O Astanga Hrdayam junto com o Charaka Samhita e o Susruta Samhita formam o chamado “grande trio” do Ayurveda, ou seja, os tratados clássicos mais importantes que todo estudante de Ayurveda na Índia deve ler durante a sua formação na Medicina Indiana clássica. Estes tratados foram escritos na língua tradicional dos antigos textos hindus, ou seja, o sânscrito, que é inacessível para a grande maioria dos ocidentais, nós que não dominamos esta língua muito antiga temos que aguardar as traduções para o inglês que é uma das línguas oficiais da Índia.

O Astanga Hrdayam é um texto baseado nos tratados anteriores de Charaka e Susruta e foi o compendio de Ayurveda que recebeu o maior numero de comentários devido a sua grande importância. Sobre isto Ramachandra Rao afirma:

“ O objetivo do tratado parece ser a união dos conhecimentos médicos relevantes contidos no Charaka Samhita e no Susruta Samhita pois já existia uma divisão entre as duas tradições medicas: terapêutica e cirúrgica. Há uma imposição explicita que nem o Charaka Samhita nem o Susruta Samhita devem ser estudados exclusivamente; os dois devem ser judiciosamente combinados pelo médico praticante.” ( Rao, 1985: 21)

O compendio é um trabalho preparado a partir dos oito ramos da Medicina Ayurvedica e foi escrito por um médico chamado Vagbhata que era filho de Simhagupta e recebeu o mesmo nome de seu avô, segundo o autor, um grande médico. Vagbhata estudou medicina com seu pai e mais tarde com um monge budista chamado Avalokita. A maoria dos autores colocam Vagbhata em torno do século V e VI da nossa era. Além do Astanga Hrdayam(A H) , o medico escreveu um outro trabalho chamado Astanga Samgraha ( A S ) que é semelhante ao primeiro porem maior. Enquanto o A S possui 150 capítulos o A H possui 120 capítulos. Com relação aos trabalhos de Vagbhata, Ramachandra Rao afirma:

  “ O primeiro trabalho( A S) não apenas é volumoso mas é uma mistura de prosa e verso, como o Charaka e o Susruta Samhita, enquanto o segundo ( A H ) é menor, versificado e poético assim os estudantes poderiam memorizar mais facilmente. O conteúdo e o estilo literário não deixam duvidas que o autor dos dois trabalhos é o mesmo…” (Rao, 1985: 101)

Nestes dois tratados clássicos, Astanga Sangraha e Astanga Hrdayam, existem várias referencias ao budismo, além disto o seu professor, Avalokita, era um monge budista, estas evidencias fazem com que Vagbhata fosse considerado um médico que foi seguidor dos ensinamentos de Buda. O que nos parece bem razoável, pois, nós já vimos a estreita relação entre a tradição budista e a Medicina Indiana.

O caminho da Meditação

Meditação é um estado de consciência totalmente silencioso. Um estado mental de quietude, onde a pessoa percebe-se na mais pura serenidade e integração.

Meditação em si não é método, nem técnica. Ainda assim, certamente, existe uma série de maneiras, métodos e técnicas para propiciar a mente esse estado de meditação. Em meditação a mente ultrapassa a atividade dos pensamentos e experimenta um nível de silêncio profundo, quietude total, um estado de consciência imensa, vasta e ilimitada!

A experiência de meditação não é mórbida e sem graça. Ao contrário, estar em meditação é um estado vibrante, esfuziante ainda que profundamente relaxado. Em meditação percebe-se o ser interior silencioso, inteligente, criativo – manancial de  alegria,  paz e bem-estar. A meditação aguça a mente e a intuição, resultando em mais produtividade e satisfação.

Durante a meditação há um alívio das pressões mentais, o ritmo da respiração cai, os batimentos cardíacos baixam, os músculos relaxam e as emoções se pacificam. Isso ajuda a diminuir em muito os problemas relacionados a stress e tensão e a reduzir hábitos pouco saudáveis, como o fumo, a bebida em excesso, uso de remédios para dormir e de tantas drogas químicas indesejaveis. As mais fortes inclusive.

Fácil de praticar e simples de aprender, pratica-se a meditação sentado confortavelmente por algum tempo em qualquer lugar e a qualquer momento que você considere adequado, usando um método que você tenha aprendido ou já conheça.

 

 

 

 

Eu tive a oportunidade de ler 2 livros que foram publicados recentemente em português sobre meditação:

1. “Transcendência, Como alcançar a cura e a transformação por meio da meditação” de Dr. Norman E. Rosenthal, editora Prumo. O autor é professor de psiquiatria na George Town Medical School e pesquisador do National Institute of Medical Health há 30 anos. O livro desmistifica a prática e os benefícios da Meditação Transcendental. Trata-se de uma técnica não religiosa que produz um estado profundo de relaxamento físico e mental fundamentada na tradição indiana. Rosenthal ilustra suas considerações com uma rica pesquisa sobre o assunto demonstrando os benefícios do método em distúrbios como: estresse, ansiedade, depressão, vícios e déficit de atenção.

2.“Meditação para Leigos” de Stephan Bodian, editora Alta Books. O autor é psicoterapeuta e vem praticando e ensinando meditação há mais de 35 anos. O título engana pois parece algo superficial para desconhecedores do assunto, na verdade é um tratado sobre meditação e sua leitura pode beneficiar tanto os neófitos quanto aqueles meditadores mais experientes. Apresenta a história da meditação e várias dicas para os iniciantes mas também para aqueles que já praticam há muitos anos. Relata as mais importantes pesquisas sobre meditação e acompanha um CD com orientações sobre as técnicas de meditação ensinadas no livro. Recomendo sua leitura a todas as pessoas interessadas em autoconhecimento.

 

 

Prezados amigos:

Desde o inicio de novembro venho praticando Hatha Yoga pela manha. No Brasil tinha praticado Hatha Yoga na academia do prof. Hermogenes mas agora estou aprofundando meus conhecimentos sobre esta filosofia milenar. Estou me sentindo energizado com a pratica matinal, comecamos com exercicios de aquecimento das articulacoes e depois fazemos Surya Namaskar, a famosa “saudacao ao sol”, lentamente, depois rapidamente. O Surya Namaskar possui 12 posturas de Hatha Yoga que trabalham simultaneamente corpo, mente e espirito. Com apenas 2 ou 3 repeticoes desta ” saudacao ao sol” ja sentimos a mudanca na nossa psico-fisiologia, ”e realmente um exercicio completo.

O objetivo principal do Hatha Yoga ”e purificar a mente e o corpo do estudante para que o Prana, ou energia vital possa circular livremente pelos canais sutis. Os mestres consideram o Hatha Yoga como uma pratica preparatoria para o Raja Yoga ou meditacao ( Dhyana ). A pratica regular dos asanas e pranayamas promove um equilibrio no sistema psico-fisico traduzido como saude fisica, mental e social.

Os praticantes de Hatha Yoga tornam-se pessoas muito saudaveis, alem disto esta escola de Yoga enfatiza a longevidade do corpo fisico com o objetivo de alcancarmos estados elevados de consciencia ou samadhi.  No segundo verso do texto Hatha Yoga Pradipika lemos: “Yogi Swatmarama ensina o conhecimento do Hatha Yoga somente para o Raja Yoga, o mais alto estagio do Yoga “. Em outras palavras o Hatha Yoga prepara o corpo e a mente para o Raja Yoga ou meditacao ( Dhyana). Muitas vezes, nas escolas de Hatha Yoga no ocidente, este objetivo ”e confundido e as academias ensinam apenas exercicios sem levar em conta a verdadeira sabedoria do Yoga.

A palavra Yoga em Sânscrito significa união, integração. Ao praticar Yoga com regularidade e correção, você fecha um elo entre seu corpo, mente, emoções e espírito (seu nível de consciência mais elevado).

Como resultado você conquista um corpo forte, flexível, purificado e saudável; um bela postura; uma mente clara; um coração calmo e amoroso; espiritualidade desenvolvida; equilíbrio externo e interno; auto-conhecimento.

Se os benefícios são tantos e tão promissores para todos, a conjugação de Yoga e Ayurveda vem potencializar ainda mais essa integração. A felicidade, bem-estar e vitalidade se tornam ainda mais acessíveis.  Quando você se integra, você se desfragmenta. O homem no mundo moderno sofre e adoece por viver “aos pedaços”, na rotina barulhenta da vida. A desunião de todos os aspectos da vida é a causa do todo o sofrimento.

Há mestres que chegam a definir o Yoga como o aspecto espiritual do Ayurveda, e o Ayurveda como o aspecto terapêutico do Yoga, tão profunda a conexão existente.

Do ponto de vista do Ayurveda, cada indivíduo é único e traz em si um potencial de auto-cura. Foca o tratamento levando em conta o respeito à essa individualidade, que gera necessidades particulares para cada ser. O paciente recebe orientação para uso das ervas mais apropriadas, dieta, rotina e hábitos de vida, meditação, proteção térmica, etc.

Ora, olhando deste modo, se cada pessoa tem um humor biológico próprio ( Dosha ) que lhe permeia e determina o tempo todo, porque não se observa isso também na prática de Yoga? E, possuindo também o Yoga instrumentos para trabalhar no auto-conhecimento e na eliminação das disfunções do praticante provocadas pelo desequilíbrio dos Doshas, fica clara a adequação de se integrar as duas abordagens na obtenção do equilíbrio físico e mental. O resultado são práticas muito mais eficientes no caminho do bem-estar e da cura.

Como ficaria isso na prática?

  • Paciente PITTA: se beneficiará com uma prática restaurativa com asanas introspectivos, pranayamas refrescantes, mantras entoados de modo doce e suave, comando de aula tranqüilo, mas dinâmico.
  • Paciente VATA: se beneficiará com uma prática suave, asanas equilibrantes, pranayamas que geram harmonia, mantras entoados de modo doce e suave, comando de aula tranqüilo, tom de voz baixo.
  • Paciente KAPHA: se beneficiará com uma prática mais vigorosa, com asanas revitalizantes, pranayamas energizantes, mantas entoados de modo firme, comando de aula estimulante, tom de voz bem pontuado.

A prática Yóguica sob um perspectiva Ayurveda abre uma nova dimensão não só no campo da saúde, mas também na compreensão do comportamento do ponto de vista energético e emocional.

Dessa maneira, ligações profundas podem ser resgatadas, libertando de todo sofrimento, inclusive físico ( doenças ). As doenças tem raízes emocionais, pois são mensageiras daquilo que o ser interior gerou para si.

Como as aulas de Ayurveda Yoga são recentes entre nós, ainda ocorrem apenas em atendimentos individuais, geralmente na residência do paciente, duas vezes por semana. Mas esse fator limitador acaba resultando num trunfo, já que o professor passa a freqüentar a casa do aluno, estreitando vínculo, oferecendo apoio, conhecendo um pouco a rotina e os hábitos domésticos da pessoa, possibilitando um feedback ao médico, que em geral só está com o paciente uma vez ao mês. O foco do paciente, que recai sobre aquele profissional e muitas vezes gera uma dependência ansiosa sobre sua cura, acaba se diluindo quando dividido com o instrutor, com quem tem contato mais constante. E com a convivência ganha-se um reforço na persuasão quanto à mudança de hábitos e observância das recomendações do tratamento.

Não há como não perceber Yoga e Ayurveda como aliados que se complementam, atuando como pilares que unidos dão sustentação rumo à plenitude física, mental, emocional e espiritual do ser humano.