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Visitei a Índia em 1991 quando estive nos ashrams de Paramahansa Yogananda, autor do belíssimo livro Autobiografia de um Iogue, praticando meditação,16 anos depois retorno ao subcontinente indiano com o objetivo de estudar Ayurveda. Hoje a Índia é um país diferente daquele que encontrei no inicio dos anos 90, com mais de 1 bilhão de habitantes, uma economia emergente crescendo 8% ao ano, tornou-se um ícone da era digital e da tecnologia da informação para ao países em desenvolvimento.

Estou na Gujarat Ayurved University, maior centro de ensino e pesquisa da Medicina Ayurvedica do planeta, com o objetivo de passar 4 meses estudando para a minha tese de doutorado no Instituto de Medicina Social da UERJ. Aqui, no enorme campus, existem 6 institutos distintos que fazem parte do complexo universitário com as várias disciplinas relacionadas a tradição Hindu.

O Shri Gulabkunverba Ayurved Mahavidyalaya é uma faculdade de graduação em Ayurveda fundada em 1946 e oferece o B.A.M.S., ou seja, o Bacharelado em Medicina Ayurvedica e Cirurgia que dura 5 anos e meio. Esta escola possui um hospital com 105 leitos para pacientes internados onde todos os tratamentos são feitos com as ferramentas terapêuticas da Medicina Indiana, incluindo os medicamentos produzidos dentro da Universidade.

O Institute of Pos Graduate Teaching and Research in Ayurveda foi fundado em 1956, totalmente financiado pelo governo da Índia, oferece 2 cursos de pós-graduação: o Medical Doctor in Ayurveda com extensão de 3 anos e o PHD ( doutorado em Medicina Ayurvedica) com duração de 2 anos. Cerca e 1200 teses de pós-graduação foram realizadas em 13 especialidades distintas da Medicina Indiana.

Eu me matriculei no Patanjali Institute for Yoga and Naturopathy Education para fazer um curso de Hatha Yoga de 3 meses. Toda manhã praticamos Hatha Yoga e a tarde temos aulas teóricas com o estudo dos textos clássicos da tradição Hindu. Aos sábados as 6:30 da manhã fazemos as Kriyas, purificações com jalaneti e vamana ( limpeza das fossas nasais e vômito terapêutico). Este instituto forma profissionais na área de Yoga e Naturopatia ( terapias naturais) desde 1982, inclusive com curso de pós-graduação para profissionais da área da saúde.

Em 1999 foi fundado o Institute of Ayurvedic Pharmaceutical Science com graduação e mestrado em farmacia Ayurvedica. Neste mesmo ano foi criado o Institute of Ayurvedic Medicinal Plant Science, com o objetivo de fazer pesquisas em Fitoterapia. Este centro de ensino oferece um mestrado em ciência das plantas medicinais com duração de 2 anos para profissionais da área de botânica, farmácia, agricultura e Ayurveda.

Devido ao grande interesse dos estudantes estrangeiros na tradição do Ayurveda, foi criado o International Center for Ayurvedic Studies, onde freqüento as aulas sobre a Medicina Ayurvedica diariamente em inglês indiano ( as vezes literalmente impossível de entender). Este centro de ensino da Medicina Indiana oferece vários cursos, de curta duração, para estrangeiros em língua inglesa. Convido a todos os interessados na tradição Hindu a entrarem no nosso site.

De volta  há um mês de uma viagem à Índia , as impressões  registradas começam a se processar e se elaborar  na mente. É mesmo impossível ficar indiferente à esse exótico país, onde tudo mexe com os nossos sentidos o tempo todo: as cores, os aromas, os sabores, os hábitos que constantemente nos surpreendem. O ideal é colocar-se aberto e receptivo às novas experiências, refletindo sobre elas  sem julgamento  depois.

Se o som rude do hindi, a língua mais falada no país fere por vezes os ouvidos mais sensíveis (o hindi não é tão melódico e poético como o sânscrito, usado nas escrituras sagradas), em compensação a melodia das canções folclóricas e religiosas como os mantras enternecem a alma dos ouvintes. Foi interessante notar na televisão local tantos canais onde só se apresentam cantores ou grupos de mantra, se sucedendo o tempo todo sem parar. O contraste vem quando se depara também com os canais tipo MTV, infelizmente com a marca da globalização, exibindo mulheres com roupas e poses provocativas e sensuais e cantores-galãs locais, cheios de moças suspirando aos seus pés. Isso é muito recente por lá, prática antes inimaginável, já que a sociedade indiana sempre foi muito conservadora. Mas ver tv nas poucas horas vagas era enriquecedor, a tv sempre reflete o povo local, havia uma emissora que transmitia aulas de Yoga num grande estádio com cerca de 2000 pessoas praticando. Isso, normal para um país de mais de um bilhão de habitantes, é muito curioso para nós, acostumados a alguma privacidade, que é quase impossível por lá.

As ruas, lojas, transportes, templos, monumentos, são sempre lotados. Certamente lá mais de um corpo ocupa o mesmo espaço. E o espaço ainda é dividido sem questionamento com todo tipo de animal, mas as vacas imperam. Se no início elas causam estranheza, de repente você se vê transitando entre elas sem nenhum constrangimento. Também partilhei ruas com cabritos, cachorros, elefantes, macacos, ah, e ratos, claro. Na Índia eles são muitos mesmo, não dá pra escapar. Confesso que na maioria dos templos era difícil conseguir sentar no chão, fechar os olhos, fazer uma oração ou meditar, sem sentir receio  de receber uma visita inesperada. Mas felizmente encontrei alguns lugares limpos e bem conservados onde isso foi possível. Agora, a maioria é mesmo suja e não recebe apenas fiéis e visitantes da raça humana, cheguei a ver vacas e macacos dentro de templos.

O quesito higiene é um complicador na Índia para nosso padrão ocidental. Muitas das ruas não são  asfaltadas, fezes de animais se espalham ( é impossível não pisar,acabei deixando meu sapato de guerra usado na viagem por lá, não tinha mais condição de uso aqui),não há tratamento de água ou esgoto. É preciso um cuidado grande com o que se bebe e se come, há muitos alimentos preparados na rua, e mesmo nos restaurantes há  problemas na manipulação. Estava com um grupo grande, de quase 30 pessoas, das quais fui uma das duas únicas a não adoecer por  infecção gastro-intestinal, em função da vigilância constante e por ter privilegiado o consumo de frutas(lavadas co água mineral e sem casca), biscoitos industrializados e chocolate.  Os pratos da culinária local são bastante atraentes, cheirosos e coloridos, mas extremamente condimentados, o que os tornam intragáveis para alguém que não aprecia  especialmente a pimenta como eu. Já os doces são bastante apetitosos, e pode-se comê-los desde que se confiar na procedência.

Deslocar-se pelas cidades é uma aventura  que a princípio assusta, mas com o tempo torna-se divertido. O trânsito é maluco, não se respeita qualquer regra, nem mesmo  mão e contra-mão, inclusive nas estradas, e buzina-se muito, muito, muito! Eu costumava dizer que eles devem aprender a dirigir desde a auto-escola com uma mão só, pois a outra está sempre na buzina. Quase não há sinais nos cruzamentos, atravessar a rua é questão de se jogar mesmo. E considerando que os veículos também disputam  as ruas com os animais, por vezes tudo pára mesmo, até que se abra passagem. A mão é inglesa, e no meio da loucura  do trânsito, estive algumas vezes envolvida em batidas, pequenos acidentes, eles se jogam uns por cima dos outros disputando passagem loucamente, cheguei a ver um capotamento, derrubadas de motos e um atropelamento. Mas por mais incrível que pareça, acabei me habituando, no final da viagem já tinha incorporado a doideira. O meio de transporte mais barato e comum para o turista é o rikishaw ou tuc-tuc, como também é chamado. Trata-se de uma moto ou bicicleta com um pequeno assento atrás para três passageiros, com uma pequena carroceria, e o veículo não tem janelas. O preço deve ser sempre bem barganhado, e a vantagem é o condutor aceitar levar tantos quantos couberem, o que é amedrontador, considerando a fragilidade do carrinho.

O povo das cidades grandes como Delhi ou Mumbai já está com hábitos e comportamentos ocidentalizados, incluindo explorar o turista incauto, como no mundo todo, mas na Índia rural encontrei pessoas adoráveis, puras, gentis, generosas, prestativas e desinteressadas. São espiritualizadas, religiosas e demonstram interesse genuíno em saber sobre a terra do visitante. Muitos pedem lembranças daqui como bilhete de metrô, por exemplo. Outros pedem que sejam fotografados e que recebam a foto, uma vez que nunca tiveram na vida uma foto sua. Enviei fotos reveladas para 2 pessoas, com o maior carinho.

O folclore do país é riquíssimo, mas tive mais contato como folclore do Rajastão, região de deserto no noroeste  da Índia. As danças as vestes e os sons são espetaculares. O mesmo se pode dizer do artesanato indiano, que é rico, precioso e muitíssimo barato. Mesmo quem não vai com a intenção de fazer compras acaba não resistindo, e volta com roupas, peças de prata, tecidos, colchas, estatuetas, cds, xales, saris, incensos, especiarias, pedras. Muitos do meu grupo compraram malas lá para  trazer as compras inesperadas.

Outro foco de interesse são os palácios dos marajás e os monumentos, como o famoso Taj Mahal. São de tirar o fôlego. A arquitetura, o trabalho de auto-relevo em mármore, incrustação de pedras preciosas atraem a nossa atenção pra mil coisas ao mesmo tempo. Cada lugar mereceria uma visita de dias para apreciar cada detalhe. Nesses lugares você encontra também muitos indianos de todo o país, além de muitos estrangeiros e os grupos indianos, um bloco de roupas multicoloridas que se avista de longe. As mulheres, mesmo as não em condições financeiras muito favoráveis, sempre com muitas jóias  e incrustações de diamantes  na asa do nariz. O corpo é visto como um templo do Divino, e enfeitá-lo com roupas bonitas, pinturas e jóias é visto como uma prática religiosa, ainda mais a mulher, que é vista sempre como uma manifestação da Mãe Divina.

Como professora de Yoga, tinha, claro, interesse em conhecer institutos e mesmo praticar por lá, mas infelizmente foi impossível, uma vez que nessa época de final de ano e janeiro quase todos estão com as atividades em recesso. Nos ashrams (comunidades  onde se mora, estuda e pratica Yoga) a maioria dos residentes vai para seus locais de origem visitar a família. Estive  por uma semana hospedada no Dayananda Ashram, que se dedica ao estudo de Vedanta, a parte final das  sagradas escrituras do Hinduísmo. Lá se experimenta uma vida de recolhimento e austeridade, muita simplicidade e nenhum luxo. Todos trabalham, estudam, e pela manhã bem cedo, das 5:00 às 6:30 e pela tarde das l8:00 às l8:30 comparecem ao templo  do próprio ashram para  os rituais religiosos de Puja (reverências, adorações e oferendas). O templo era limpo, agradável, bem cuidado e as cerimônias muito belas e bem conduzidas por um sacerdote, com lindos cânticos. O ashram fica na beira do Rio Ganges, que nesse trecho, perto dos Himalaias, é bastante limpo e bonito. Foi bastante impactante estar diante desse rio sagrado pela primeira vez, é um contato muito emocionante. Era bom estar perto de suas águas, fazer puja no rio, ir até lá várias vezes por dia ou mesmo ouvir seu barulho ao longe, pois é um rio bastante pedregoso e caudaloso, suas águas correm com uma força impressionante. Não pude deixar de trazer comigo um pouco dessa água transcendental para borrifar e purificar minha casa e a sala onde dou minhas aulas. Esse rio tem realmente uma energia muito especial, pena não ter sido possível me banhar, pegamos uma onda de frio, estávamos no inverno, no sopé dos Himalaias, a temperatura estava realmente muito baixa, e só conseguíamos sair com camadas e camadas de roupas, meias, botas e grandes casacões. No norte da Índia faz realmente muito frio!

A cidadezinha onde está o ashram, Rishikesh, é repleta de ashrams e templos, é conhecida como a capital mundial do Yoga. As esculturas que enfeitam os telhados dos templos são fantásticas, e visitei também templos mais inacessíveis, no alto das montanhas, locais que só recebem mesmo peregrinos, não turistas comuns. Tive a oportunidade de visitar um mestre renunciante (sadhu) que vive há muitos anos numa gruta na montanha. Foi interessante constatar de perto que isso realmente ocorre, uma vez que a gente somente ouve falar  sobre essa opção de vida, onde a pessoa se despoja de tudo e se recolhe para total dedicação à vida espiritual, vivendo apenas de doações esporádicas. Mas é preciso ter olho clínico, pois a gente se depara com falsos sadhus aos montes, interessados somente nas doações, mas por vezes a performance é muito convincente!

Enfim, a Índia é impactante! Tem sujeira, dificuldades de alimentação, falsos mestres, aproveitadores de turista, mas tem também um povo adorável, apesar de sofrido e miserável, uma produção artística inacreditável, um folclore deslumbrante, construções admiráveis. Além do mais é a terra do Hinduismo, da linda mitologia hindu, berço do Yoga. E me ofereceu ainda a oportunidade de um contato mais estreito com o Ayurveda, ciência milenar que estudo, pratico e  incorporo em meu trabalho.

As experiências, boas ou nem tanto, me enriqueceram, e o saldo é sempre positivo. Se eu voltaria? Sim, claro!

Om Shanti, Namaste.