Ayurveda e a sua relação com a Psicologia

Segundo a tradição indiana milenar conhecida como ayurveda (que significa ciência ou conhecimento da vida), surgido da observação da natureza, não se pode pensar mente e corpo de formas separadas.  Há uma psicologia implícita no ayurveda, que ainda não é o aspecto mais procurado no ayurveda no Brasil, mais conhecido pela sua ligação com a dietética, meditação e yoga.

Sendo um conhecimento voltado para a saúde integral e que faz a prevenção da doença, na medida em que equilibra o indivíduo, obviamente o ayurveda é muito mais do que apenas cuidados com a alimentação adequada a cada pessoa. Apesar da nutrição e dieta serem os aspectos que mais se têm destacado na mídia atualmente, deve-se cuidar também da nutrição, digamos, mental. Por vezes, é mais difícil fazer uma reeducação nos nossos maus hábitos mentais do que cortar alguns alimentos do cardápio e experimentar outros temperos…

Alguns recursos que o ayurveda indica e que auxiliam nesta “reeducação mental”  são a meditação e o yoga. Ambas, nas suas variadas correntes, contemplam a necessidade de cada pessoa. No dia-a-dia, fora das academias de yoga, hábitos de leitura ou programas e filmes a que se assiste também podem influir e agravar um estado mental.

Outro recurso para ajudar a reequilibrar o paciente são as afirmações de cura. Associadas a alguns mantras, podem ajudar a mudar o padrão mental. E não podemos deixar de mencionar a massagem (abhyanga).

E que pontos temos em comum entre a psicologia ocidental e a psicologia contida no pensamento ayurvédico? Talvez seja mais fácil apontar no que se diferenciam… Na Índia, na sua prática, o terapeuta ayurvédico já contempla o aspecto psicológico do paciente. No Ocidente, Medicina e Psicologia têm andado separadas e, como ao psicólogo não é permitido prescrever, o ideal é realizar um trabalho multidisciplinar, em parceria com um médico e um nutricionista da mesma abordagem, para que o paciente esteja amparado.

O profissional de psicologia, na abordagem ayurvédica – como qualquer outro terapeuta da mesma linha – vai tentar nas primeiras entrevistas chegar a um diagnóstico sobre o equilíbrio/ desequilíbrio dos doshas (humores biológicos) no paciente. São três os doshas existentes: vata, pitta, kapha. Tem-se uma constituição, “de nascença”, muitas vezes ancestral. Constantemente saímos do equilíbrio em função do meio ambiente (estresse, dieta inadequada), ou simplesmente pelas mudanças de estação.

A partir daí, são feitas recomendações individualizadas, observando também as qualidades cósmicas (em sânscrito, seriam os gunas: sattva, tamas, rajas). Em cada caso, o psicólogo trabalhará de forma diferente. Um exemplo banal: pessoas que normalmente têm dificuldade de dormir (o que pode ser um sintoma de um dosha desequilibrado), ao assistirem a filmes de ação – ou seja, muito rajásicos – pouco antes de dormir, terão maior dificuldade para conciliar no sono. Ou pessoas muito sonolentas, apáticas, podem estar com predomínio de tamas. E os recursos serão acionados de acordo com cada caso. E, obviamente, ouvindo o discurso do paciente e observando as alterações ao longo do processo psicoterapêutico.

Outro exemplo: no manejo da agressividade do cliente, enquanto várias linhas psicoterápicas frisam a importância de expressar a raiva (característico de rajas), usando técnicas para fazer uma catarse no consultório – no ayurveda, a observação do sentimento/ sensação é o mais importante. Expressá-lo pode mesmo reforçar a sua existência, pelo hábito ou condicionamento. Se nas psicoterapias ocidentais, o ego é o rei, segundo o pensamento ayurvédico, o ego não deve ser nutrido…

Thays Babo

É psicóloga, mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, e publicitária. Estuda o ayurveda a fim de conciliar a visão oriental com a prática ocidental.

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