Ayurveda Trividha Chikitsa: corpo, mente e espirito

O Charaka Samhita (principal texto de clínica médica ayurvédica) coloca as 3 dimensões da terapêutica ou trividha chikitsa: Yuktivyapashraya, Sattvavajaya e Daivavyapashraya.  Abaixo descreveremos estas distintas abordagens em uma visão integrativa:

  • 1- Yuktivyapashraya (tratamento racional ou físico): depende do diagnóstico ayurvedico do desequilíbrio e a consequente tentativa de eliminar a causa do adoecimento. Utiliza-se o tratamento oposto a qualidade do Dosha em desarmonia: terapias depuradoras, dieta individualizada, oleação, sudação, massoterapia com óleos vegetais e pó de ervas, rotina diária saudável (mudanças no estilo de vida), medicamentos ayurvedicos (de origem animal, vegetal e mineral).
  • 2- Sattvavajaya (psicoterapia ou terapia mental): com o objetivo de aumentar a qualidade sattva na nossa mente (autoconhecimento e espiritualidade) e diminuir rajas (paixões e apegos) e tamas (ignorância e inércia). A proposta aqui é aumentar autocontrole, desapego e força de vontade. Nesta abordagem terapêutica o ênfase está no processo de autoconhecimento que é a base para a autotransformação. O importante autor medieval Vagbhata, no seu clássico Ashtanga Hrdaya, afirma: “ As melhores terapias para a mente são nutrir a inteligência (dhi), desenvolver coragem, força de vontade e paciência (dhaira) e cultivar o conhecimento espiritual (atmadi vijnana)”. O Charaka Samhita desenvolve esta terapêutica para aumentar Sattva recomendando 5 abordagens:
  • Jnana: conhecimento espiritual ou conhecimento discriminativo (auto-conhecimentro)
  • Vijnana: conhecimento das escrituras ou conhecimento da verdade
  • Dhaira: controle da mente
  • Smriti: memória (recordar as ações que nos fazem bem e promovem saúde)
  • Samadhi: êxtase espiritual ou super-consciência

Porem, foi o sábio Patanjali, no seu famoso texto “Yoga Sutras”, que descreveu, os oito passos para alcançarmos o samadhi. Denomina-se Raja Yoga ou Ashtanga Yoga, ou seja, o Yoga dos oito membros. Aqui o mestre Patanjali coloca uma metodologia racional para se alcançar a realização espiritual ou o auto-conhecimento, fundamentada na introspecção. Todas as pessoas, de qualquer religião ou caminho espiritual, podem praticar esta filosofia do Yoga sem interferir na sua fé pessoal. Entre os 8 membros do Yoga de Patanjali os 2 passos iniciais são considerados preparatórios para o meditador:

  • Yama ou observância moral: não violência (ahimsa), verdade (satya), não roubar (asteya), auto-controle na sexualidade (brahmacarya) e ausência de cobiça (aparigraha).
  • Niyama ou auto-domínio: pureza (shauca), contentamento (samtosha), ascetismo (tapas), estudo (svadhyaya) e devoção ao Senhor ( ishvara-pranidhana).
  • Asana ou postura: O sábio Patanjali afirma simplesmente que a postura deve ser firme e confortável, ou seja, em um estado de relaxamento. Em geral é recomendado que o praticante sente-se com a coluna vertebral ereta, com o tronco, o pescoço (coluna cervical) e a cabeça alinhados, de modo que a força vital (prana) possa subir e descer livremente ao longo do eixo corporal. Sem uma postura adequada e confortável a prática pode ficar prejudicada.
  • Pranayama ou controle da força vital: através de uma postura correta (asana) deve-se praticar o controle da respiração. Através da respiração controlamos o prana (força vital) e por meio do prana dominamos a mente. O pranayama é realizado através das técnicas de respiração.
  • Pratyahara ou recolhimento dos sentidos: O Goraksha Samhita, texto clássico medieval de Hatha Yoga, faz uma analogia para facilitar o entendimento de pratyahara: “Como a tartaruga retrai os membros para o meio do corpo, da mesma forma, o iogue deve recolher os sentidos para dentro de si mesmo”. Em sânscrito pratyahara divide-se em 2 palavras: pratya, quer dizer contrario e ahara significa aquilo que vem de fora, como a comida. Pratyahara é o contrário do que vem de fora, ou seja, introspecção ou recolhimento através do controle dos sentidos. Este quinto componente, do Yoga de Patanjali, prepara a mente do meditador para o mergulho no processo da meditação profunda.
  • Dharana ou concentração: fixar a mente em um objeto aumenta o poder de concentração da mente. No Hatha Yoga existe o exercício de Trataka que é olhar fixamente para um objeto até que as lágrimas comecem a cair. Na Gujarat Ayurved University, durante nosso curso de Yoga, fizemos esta prática ao concentrar-nos na chama de uma vela até surgirem ás lágrimas.
  • Dhyana ou meditação: a prática da meditação é um aprofundamento ou uma continuação natural da concentração (dharana). Recomendamos uma regularidade nesta introspecção, duas vezes ao dia, pela manhã cedo, antes do café e a noite antes do jantar ou próximo de dormir. Aconselhamos a leitura do livro inspirador e bem organizado “ Meditação Para Leigos” de Stephen Bodian e também o texto “ Plena Atenção” de Mark Williams e Danny Penman,
  • Samadhi ou êxtase: este é um estado superior de consciência e possui vários níveis. No seu espetacular tratado “A Segunda Vinda de Cristo” o mestre Yogananda ensina: “O profundo samadhi, na meditação, é possível somente quando todas as funções corporais são aquietadas. Uma dieta apropriada e o jejum são úteis, condicionando o corpo para este estado de tranquilidade e interiorização”.
  • 3-Daivavyapashraya (terapia espiritual ou sutil): aqui utiliza-se as ferramentas terapêuticas sutis ou espirituais com o objetivo de mudar daiva, ou seja, o destino: mantras, rituais, preces, oferendas, niyama (pureza, contentamento, estudo, ascetismo e devoção), peregrinações a lugares sagrados, jejum como meio de autopurificação, jyotish (astrologia hindu) e utilização de gemoterapia, ou seja, uso de pedras preciosas e semipreciosas de acordo com a orientação do mapa astrológico hindu.
  • Terminamos com a mensagem reveladora de Sri Krishna na Bhagavad Gita (principal texto do pensamento indiano):
  • Arjuna afirma para Sri Krishna: “A mente é agitada, ó Krishna, perturbadora, forte, determinada. Acredito que seu controle seja tão difícil quanto o controle do vento”  Resposta de Sri Krishna: “Sem dúvida a mente é agitada e difícil de se controlar, porem com a prática (disciplina) e desapego, a mente pode ser controlada” Bhagavad Gita,  VI,  vers. 34 e 35.
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